'Der Spiegel': Oriente Médio vive a guerra mais sangrenta da história da humanidade 

São seis anos, mais de 250 mil mortes e 9 milhões de desabrigados 

O jornal alemão Der Spiegel traz em sua edição desta terça-feira (10) uma extensa matéria sobre a guerra fria no Islã, travada pelos arquirrivais Arábia Saudita e Irã. 

Segundo a reportagem, nenhum presidente americano havia sofrido tal indignidade como o ocorrido quando Barack Obama aterrissou no aeroporto de Riade em meados de abril. O rei Salman optou por permanecer em seu palácio e o homem mais poderoso do mundo foi recebido pelo governador de Riad, sem nenhuma pompa ou recepção cerimonial. A televisão controlada pelo Estado recusou-se a transmitir a chegada. Obama parecia ligeiramente perdido na pista, mas deu largo sorriso, para disfarçar elegantemente a desfeita.

O jornal alemão conta que os países do Oriente Médio não estão mais sob o controle dos xiitas, fazendo o Irã se sentir mais forte, e quanto mais pressionado pela Arábia Saudita mais forte se sente, já que se trata de um país cujos governantes chegaram ao poder por meio de um pacto com os fundamentalistas sunitas, os wahabitas.

Der Spigel analisa em sua publicação, que esta nova Guerra Fria afeta o mundo inteiro, fazendo-se necessário procurar as suas causas e entender a fundo o que está motivando a Arábia Saudita e o Irã a para continuar neste caminho. Uma equipe de repórteres do Spiegel foi para estes países investigar e conversou com políticos, líderes religiosos, ativistas, intelectuais e pessoas normais nas ruas.

Incertezas e mudanças rápidas

O Oriente Médio está mudando dramaticamente. E não importa para onde se olha, Teerã e Riad estão com o pé atrás com pelo menos uma das partes envolvidas no conflito. O reino da Arábia Saudita, de acolhimento e protetor dos lugares santos de Meca e Medina, está sendo visto como a casa do Islã sunita, à qual a maioria dos muçulmanos do mundo pertencem. A República Islâmica do Irã, uma teocracia xiita, afirma a liderança dos xiitas, que compõem cerca de 13 por cento de muçulmanos em todo o mundo. Para ambos os regimes, a religião é uma importante ferramenta de poder.

A mais sangrenta guerra civil é o conflito na Síria, que já está entrando em seu sexto ano e, até agora, custou a vida de mais de 250.000 pessoas, e o cessar-fogo que está em vigor para os últimos dois meses não parece que irá durar muito mais tempo. Na Síria, e também nos conflitos no Iraque e no Iêmen, as frentes de combate se constituem principalmente em linhas confessionais: sunitas contra xiitas. Uma paz frágil detém o Líbano e Bahrein, mas pode ser quebrada a qualquer momento.

Todas estas guerras por procuração e conflitos de radicais religiosos desencadearam uma onda de migração entre os que foram deslocados: mais de 6 milhões de pessoas da Síria e do Iraque, com quase 3 milhões do Iêmen. E estas pessoas seguem para Bruxelas, Paris, Istambul e são vistas pelo resto do mundo como sobreviventes do Estado islâmico. 

Na sua essência, a situação no Oriente Médio também tem a ver com a América e seu papel no mundo. Depois de décadas de inimizade com o Irã, o presidente dos EUA, Barack Obama queria reiniciar um diálogo com o país e negociou um tratado nuclear com Teerã. A esperança é que o acordo possa limitar a capacidade do Irã de prosseguir com a produção de uma arma nuclear, tornando possível para o país fazer negócios com o Ocidente.

Ao mesmo tempo, porém, os EUA preferem se retirar desta complicada região, atormentada pelo terror e a crise mundial. 

O xiita-Paranóico da Arábia

Awamia é uma cidade empoeirada ás margens de um corpo de água bacia do Golfo Pérsico. Lá parece que a própria Arábia Saudita foi envolvida em uma guerra civil. Uma fronteira marcada por muros de proteção altos na entrada da cidade e um veículo blindado estacionado. À noite, holofotes iluminam o local.

Paredes espessas de concreto também fazem parte da decoração da praça principal de Awamia em torno do posto policial, da subestação elétrica e do escritório municipal. As paredes são cobertas com pichações:

"Eles estão nos matando porque somos xiitas!" 

"Vá para o inferno você!" 

"Nós nunca vamos desistir!"

 "Nós nunca vamos esquecer, Nimr!" 

"Nosso Nimr não morreu!"

Na noite de 01 de janeiro, a Arábia Saudita teve o clérigo e pregador Nimr al-Nimr, baseado em Awamia, executado, juntamente com outros 46 presos, a maioria dos quais já tinham sido condenados por terrorismo. Foi a maior onda de execuções que o país assistiu em mais de três décadas.

Arábia Saudita também tem uma minoria xiita, de 10 por cento da população do país, e Nimr foi um dos representantes mais emblemáticos da minoria. Ele era um feroz opositor da Casa Real de Saud, acusando os governantes do país de oprimir sistematicamente os xiitas. O governo rejeitou as acusações e acusou Nimr de ser um terrorista controlada pelo Irã. Eles disseram que ele tinha sido responsável pela morte de pessoas da segurança da Arábia Saudita.

Seguindo a execução de Nimr, uma furiosa - mas aparentemente organizada - multidão invadiu a Embaixada da Arábia Saudita em Teerã, resultando no rompimento das relações diplomáticas de Riyadh com o Irã. Teerã retirou seus diplomatas de lá, desde então, um silêncio glacial reinou entre as duas potências regionais.

Recentemente, o país também embarcou em aventuras de política externa. Seu vizinho do sul da Arábia Saudita, lançou uma iniciativa militar contra os rebeldes xiitas Houthi do Iêmen. No entanto, apesar de meses de bombardeio, a operação foi um fracasso, com imagens de cidades destruídas e civis mortos ajudando principalmente o Irã.

Para ler matéria original na íntegra, clique aqui:

https://www.spiegel.de/international/world/saudia-arabia-iran-and-the-new-middle-eastern-cold-war-a-1090725.html