Bashar al-Assad: “Há 80 países que apoiam os terroristas na Síria”

El País entrevista o presidente da Síria em um momento crucial do conflito no país

O jornal El País conta em entrevista ao presidente da Síria, Bashar al-Assad, publicada neste sábado (20), que o próximo mês marca o quinto aniversário do início das revoltas depois das quais a Síria mergulhou em uma das guerras mais sangrentas que se tem notícia na história do Oriente Médio. 

Ao menos 260.000 pessoas morreram, segundo a ONU. Cinco milhões de sírios procuraram refúgio no exterior. A Europa recebeu um milhão de pessoas, numa das piores crises humanitárias do último século. Tentando atravessar o Mediterrâneo, 3.000 pessoas morreram afogadas no ano passado.

Bashar al-Assad, que se tornou presidente do país depois da morte do pai no ano 2000, perdeu –logo após a eclosão do conflito– o controle de uma parte do país, quando grandes cidades como Homs e Aleppo caíram nas mãos das milícias rebeldes armadas. Recentemente, recuperou terreno nesses bastiões adversários e seu Exército lançou uma ofensiva para interromper as vias de acesso e abastecimento dos rebeldes a partir da Turquia, com a cobertura decisiva dos bombardeios da aviação russa, que começaram em setembro.

O presidente sírio, recebeu o EL PAÍS no sábado, em meio a um forte esquema de segurança em Damasco. Concedeu esta entrevista num momento em que já fala de retomar todo o território nacional e ganhar a guerra, a apenas quatro dias de uma nova reunião para a retomada das negociações de paz em Genebra e com a questão de que se o cessar-fogo anunciado pelos EUA e a Rússia em 12 de fevereiro terá efeito, depois de que na sexta-feira expirou sem sucesso o prazo que haviam definido para sua aplicação. Ele diz que sua próxima missão é perseguir o Estado Islâmico no coração de suas operações, sua autoproclamada capital em Raqa.

Assad diz aos refugiados que podem regressar ao país sem medo de represálias e acusa Governos islâmicos como os do Qatar e da Turquia de haver promovido o conflito na Síria, um cenário no qual, admite, não só se medem os interesses de um Estado, mas os de toda uma região, com a Arábia Saudita e o Irã como potências em conflito.

Pergunta. Nesta semana foi permitido o acesso de ajuda humanitária a sete áreas sitiadas. Há estimativas de que nessas áreas vivem 486.000 pessoas, muitas delas cercadas há mais de três anos. Por que a introdução dessa ajuda demorou tanto?

Resposta. Na realidade, isso não aconteceu recentemente. Está em andamento desde o início da crise. Nós não impusemos nenhum embargo sobre qualquer área na Síria. Há uma diferença entre um embargo e um exército cercando uma área específica, porque há milicianos, e isso é algo natural nesse caso de segurança ou situação militar. Mas o problema nessas áreas é que os próprios grupos armados confiscaram alimentos e outros bens básicos dos habitantes e os entregaram aos milicianos ou os venderam a preços muito elevados. Enquanto Governo, não impedimos nunca a chegada de ajuda a qualquer área, inclusive àquelas que estão sob controle do Estado Islâmico [ISIS, na sigla em inglês], como a cidade de Raqa, no norte do país, que agora está sob seu controle e antes estava sob o controle da Frente Al-Nusra [ramo local da Al-Qaeda], por quase três anos. Enviamos a essas áreas todas as pensões dos aposentados, os salários dos funcionários e as vacinas para as crianças.

P. Então continuam enviando a Raqa e a outros bastiões do ISIS a comida e os salários dos funcionários?

R. Sim. Se enviarmos salários a Raqa porque acreditamos como Governo que qualquer pessoa síria está sob nossa responsabilidade, como não vamos fazer isso em outras áreas? Isso seria contraditório. É por isso que eu disse que o envio de ajuda humanitária não é algo recente. Nós, desde o início, nunca deixamos de permitir o encaminhamento de ajudas e alimentos.

P. E continuarão chegando?

R. Claro.

P. A Rússia e os EUA anunciaram uma trégua na semana passada. O Governo sírio está disposto a respeitar o cessar-fogo e a suspensão das operações militares na Síria?

R. Claro. Além disso, anunciamos que estamos prontos para isso, mas a questão não depende unicamente de um anúncio. Depende do que fizermos no terreno. Agora, eu acredito que o conceito de cessar-fogo não é correto, porque o cessar-fogo tem lugar entre dois exércitos ou dois países em conflito. Seria melhor usar o conceito de cessação de operações. Depende principalmente de interromper o fogo, mas também de outros fatores complementares e que são mais importantes, tais como impedir que os terroristas aproveitem a suspensão das operações para melhorar suas posições. Também depende de proibir outros países, especialmente a Turquia, de enviar mais homens e armas ou qualquer tipo de apoio logístico aos terroristas. Além disso, existe uma resolução do Conselho de Segurança da ONU relativa a esse ponto que não foi observada. Se nós não garantirmos todos esses requisitos necessários para a suspensão das operações, tudo isso terá um efeito negativo e causará mais caos na Síria e também poderá levar à divisão de fato do país. Portanto, aplicar a cessação das operações pode ser positivo se forem atendidos os requisitos necessários.

Matéria traduzida e baseada em entrevista do jornal El País. Para ler na íntegra, acesse link abaixo:

https://internacional.elpais.com/internacional/2016/02/20/actualidad/1455973003_241057.html