Um mês após ataques, Paris ainda convive com o medo

Entre as coisas mais angustiantes, está o som quase constante das sirenes, dia e noite. Um mês depois dos atentados de 13 de novembro, que deixaram 130 mortos, Paris está diferente.

O estado de emergência decretado pelo presidente François Hollande atribuiu poderes especiais às forças de ordem. Detenções, apreensões, mandados de busca: a capital francesa e sua região metropolitana convivem como nunca com viaturas da Gendarmaria e da Polícia Nacional.

No centro, lojas e atrações turísticas como a Torre Eiffel, o Louvre, o Arco do Triunfo ou as Galerias Lafayette são vigiadas ostensivamente por militares com armas em punho. Pela primeira vez em 15 anos, a catedral de Notre-Dame, um dos lugares mais simbólicos de Paris, renunciou à sua tradicional árvore de Natal. O motivo? O temor de que alguém pudesse esconder uma bomba entre os galhos.

O reforço na segurança vai se refletir também na tradicional festa de Ano Novo na Champs-Elysées, que será bastante redimensionada. Lentamente, os parisienses se habituam a conviver com o medo de novos ataques. Para muitos, sentar-se à mesa de um bar ou ir ao teatro virou um "ato de resistência". Nos jornais, há quem fale de "israelização" da vida cotidiana.

Paris como Tel Aviv? "Talvez aqui esteja ainda pior. Lá ao menos há mais controle", dizem membros da comunidade judaica da capital francesa. Já psiquiatras e psicólogos às voltas com o crescimento das consultas tentam ser mais racionalistas e otimistas. "Há mais chances de morrer fulminado por um raio do que em um atentado terrorista", diz um doutor parisiense.

Mas os ataques modificaram o estilo de vida de muitos. A angústia é palpável. Nos últimos dias, a crônica de uma jornalista do diário "Libération", que descrevia sua paranoia ao se encontrar ao lado de uma mulher com véu no metrô, foi tida como racista. Enquanto isso, alarmes por pacotes suspeitos no transporte público exasperam viajantes e maquinistas, que chegaram até a entrar em greve por causa disso.

O sindicato que representa os restaurantes fala que o número de clientes noturnos caiu de 25% a 30% em relação ao mesmo período do ano passado. Imediatamente após os atentados, a redução era de 50%. Já os bares parecem estar se recuperando mais rapidamente: a diminuição chega a "apenas" 10%. O Bonne Bière, um dos locais atingidos nos ataques, já reabriu as portas. Mesmo em teatros e salas de concerto - com exceção do Bataclan -, as atividades foram retomadas, porém agora com detectores de metal.

"Um mês depois, estimamos que a redução nas vendas em relação ao mesmo período de 2014 seja de 35%", diz Aline Renet, representante do Prodiss, sindicato que reúne produtores culturais, festivais e casas de espetáculos. A prefeita Anne Hidalgo, socialista e filha de imigrantes espanhóis, tenta injetar confiança na "cidade luz". "Paris recomeça", garantiu, falando de um aumento das visitas no setor turístico, mas sem fornecer nenhum dado representativo.

"Sei que há uma angústia, e não esqueceremos jamais das vítimas, mas as atividades foram retomadas. Essa cidade possui uma grande capacidade de resistência", insistiu a alcaide, descrevendo uma metrópole que, apesar dos ataques, foi capaz de acolher o mundo inteiro para a 21ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP21).

"Fluctuat Nec Mergitur" ("Navega e não afunda") é o histórico lema de Paris, recuperado nos manifestos espalhados pelo município e pelos escritores do 11º arrondissement, aquele que pagou com o maior número de vidas.