Erdogan volta a ser líder único da Turquia após vitória eleitoral

O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan alcançou vitória esmagadora nas eleições legislativas.  O resultado foi comemorado nesta segunda-feira (2/11) pelos mercados financeiros em busca de estabilidade.

Contra todas as probabilidades, o Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP, islâmico-conservador) se impôs ao conquistar 49,4% dos votos e uma maioria absoluta de 316 dos 550 assentos no Parlamento, de acordo com os resultados finais anunciados durante a noite pelos canais de notícias locais.

Cinco meses após o revés nas eleições de 7 de junho, esta vitória é vista como uma revanche para Erdogan, cujo reinado incontestável sobre o país durante treze anos provoca cada vez mais preocupações.

Simbolicamente, o homem forte do país comemorou nesta segunda de manhã com uma oração na mesquita de Eyup, assim como faziam os novos sultões do Império Otomano.

O chefe de estado também alertou seus críticos, incluindo aqueles da imprensa internacional, instando-os a respeitar o veredicto das urnas.

Sua vitória tem sido considerada de forma unânime como a expressão do desejo de estabilidade dos eleitores turcos, em um país que enfrenta desde o fim do verão a retomada do conflito curdo e a ameaça jihadista, após o atentado suicida que fez 102 mortos em Ancara há três semanas.

Ao longo de toda a campanha, o presidente e seu primeiro-ministro Ahmet Davutoglu se apresentaram como os únicos capazes de garantir a segurança e unidade do país, jogando com o medo do "caos" na ausência de uma maioria absoluta de um partido.

De acordo com o jornal Hürriyet Daily News, "as eleições mostraram o sucesso da estratégia de Erdogan, que assumiu riscos ao convocar novas eleições e que mudou sua prioridade da economia para a segurança".

A Bolsa de Valores de Istambul abriu a sessão em alta de mais de 5%, enquanto a lira turca, que tinha perdido mais de 20% de seu valor desde o início do ano, registrou um salto de mais de 4% em relação ao dólar e ao euro.

"Esta eleição vai colocar um fim ao período de transição que prevalecia na Turquia e deve permitir um fortalecimento da economia do país", previu a analista Valeria Bednarik, da FXStreet.

Os líderes do partido no poder defenderam desde domingo à noite a unidade do país. "Não há perdedores nestas eleições, toda a Turquia venceu", garantiu Davutoglu em seu discurso de "vitória".

"Os direitos dos 78 milhões de habitantes estão sob nossa proteção", prometeu.

Mas a oposição está preocupada com este retorno de Erdogan, muito criticado por suas tendências autoritárias. "Esta é a vitória de medo", era a manchete do jornal Cumhuriyet desta segunda-feira.

"Ninguém deve se considerar acima da lei", advertiu no domingo à noite o chefe do Partido Republicano do Povo (CHP, social-democrata), Kemal Kiliçdaroglu, pedindo para o poder "respeitar o Estado de Direito".

Quatro dias antes das eleições, o ataque da polícia turca, ao vivo diante das câmeras, para assumir o controle de dois canais de televisão ligados à oposição em Istambul provocou indignação em todo o mundo.

Atrás do AKP, o Partido Republicano do Povo (CHP, social-democrata) ficou em segundo lugar no domingo, com 25,4% dos votos e 134 assentos, à frente do Partido de Ação Nacionalista (MHP, direita) com 12% e 41 assentos, em queda acentuada.

Triunfante em junho, o Partido Democrático Popular (HDP, pró-curdo) salvou o seu lugar no Parlamento por pouco. Com 10,7% dos votos, um pouco acima do limiar mínimo de representação, ganhou 59 assentos.

Seu líder Selahattin Demirtas denunciou uma eleição "injusta", disputada sob a ameaça jihadista, mas prometeu continuar sua luta "pelo processo de paz" entre Ancara e os rebeldes do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK).