Cidades 'abandonadas' viram opção de turismo na Itália

Pequenos vilarejos são revitalizados e recuperam tradições

Na Itália, ao menos seis mil centros históricos estão abandonados ou esquecidos e perderam a maior parte de sua população de origem. Porém, investimentos de entidades e de antigos moradores estão voltando a dar vida ao verdadeiro tesouro italiano.    

Com desenvolvimento arquitetônico sustentável, que inicia com o estudo da história das casas, indústrias, edifícios e habitantes, foram discutidos três projetos modelos no país em um evento sobre sustentabilidade na Rússia. A diretora-científica do Instituto Nacional de Arquitetura, Maria Luisa Palombo, ressaltou que a maior parte desses projetos está sendo desenvolvida na área chamada de "Mezzogiorno", ou seja, o sul da Itália.   

"O nosso mezzogiorno não é só o Vale dos Templos ou Pompeia. O sul menos desenvolvido é particularmente rico de um patrimônio histórico considerado "menor", popular e pobre. Aparentemente, é considerado sem valores particulares e negligenciados e maltratados até pelas administrações locais", destacou Palumbo.    Para ela, o patrimônio na região é "criado por casas de origens árabes e medievais, com origens até pastoris". Palumbo ressalta que as ações desenvolvidas pelos antigos moradores são de suma importância. "Cidadelas, edifícios, ruas simples ou bairros foram repaginados por pessoas que viviam nesses locais e que voltam com um forte senso de pertencimento.   

Eles criaram uma nova vida e uma nova riqueza", diz a diretora.    A dirigente ainda comenta que essas atitudes transformam os locais em um "patrimônio difuso também ligado só a história do morar e que, quando recuperado, representa um novo modelo de desenvolvimento econômico sustentável ligado à arte, à cultura e às tradições".  

O primeiro caso é a "Farm Cultural Park", em Favara. Ele é uma galeria de arte, espaço para exposições e residência para artistas e designers na pequena cidade na província de Agrigento. Segundo a diretora, o local foi marcado por uma tragédia, onde a queda de uma parte da estrutura matou duas meninas.    

Por causa disso, a administração local marcou a demolição da área, mas foi impedida pela ação de antigos habitantes. Palumbo diz que, atualmente, o local se tornou "um verdadeiro e único parque cultural em toda a Sicília". Após a revitalização dos prédios, o pequeno centro histórico de Favara foi sendo reformado e hoje exibem mostras, instalações, debates e lançamentos de livros.    Outro caso emblemático é "ExFadda Oficina do Saber", em San Vito dei Normanni, na Púglia. "Era uma velha fábrica de vinhos em um belíssimo prédio construído antes dos anos 1900 e usado pela comunidade como um depósito de lixo. Agora, é um centro cultural muito vivo, um espaço público para a integração e para a criatividade. Ele foi inteiramente recuperado com respeito a suas raízes locais, com laboratórios de arte, cultura e música e um restaurante gerido por jovens com deficiência", explica Palumbo.    

Por último, o "Sextantio hotel difuso" possui duas sedes: uma em Sassi, em Matera, e outra em Santo Stefano di Sessanio, em Áquila. Para a especialista, este é um grande exemplo de recuperação. "É emblemático sobre como se pode reutilizar a reconstrução de um território reinventando uma atividade econômica tradicional", ressalta.

O local não é um hotel construído para este fim, mas sim uma área de casas históricas recuperadas e que tem um antigo celeiro como recepção. O "empreendimento" teve um sucesso extraordinário porque faz reviver os clássicos vilarejos e, por consequência, os antigos saberes artesanais da localidade - que vão desde a produção de lençóis, cobertas e peças em sabão à comida preparada pelos antigos moradores.    

Por causa do sucesso, diversas regiões italianas copiaram a ideia e reabriram restaurantes e bares no mesmo estilo. "Trata-se de empresas, fundações e pessoas que se revelam iluminadas porque agem cuidando das paisagens e dos moradores para refazer as cidades sem perder as suas raízes. Casos que demonstram como a requalificação e a revitalização do território não são apenas possíveis, mas necessários para o relançamento da economia no país", conclui a diretora.