"Polícia fez piada da nossa cara", diz primo de Jean Charles

Dez anos após o assassinato do brasileiro, nenhum oficial da polícia britânica foi condenado

Um inocente executado com sete tiros na cabeça. Policiais que atiraram antes de perguntar qualquer coisa. Uma corporação determinada a encobrir seus erros e evitar punição aos responsáveis. Informações manipuladas para incriminar a vítima. Dez anos depois do crime e nenhum oficial condenado criminalmente.

À primeira vista, a história de Jean Charles de Menezes poderia ter ocorrido em países onde o respeito aos direitos humanos é um mero detalhe, entre eles o Brasil. Mas o assassinato do eletricista de Gonzaga, Minas Gerais, ocorreu em Londres, capital do Reino Unido. E foi realizado pela polícia britânica.

No aniversário de dez anos da morte de Jean Charles, que ganhou repercussão no mundo inteiro, a manchete principal ainda é a falta de condenação aos envolvidos no episódio. Desde os policiais que puxaram o gatilho – que nunca tiveram sua identidade revelada – passando pela ordem de execução, até chegar ao topo do comando da polícia metropolitana. Ninguém foi punido criminalmente.

“Parece que é uma brincadeira, que estão fazendo piada com a nossa cara”, disse ao Terra Alessandro Alves Pereira, primo do brasileiro morto no metrô de Londres em 22 de julho de 2005. Pereira participou, ao lado de outros dois parentes, de uma pequena cerimônia em homenagem a Jean Charles realizada nesta quarta-feira na porta da estação Stockwell.

Uma década depois do crime, ele ainda não consegue superar a indignação pelo andamento do processo de investigação na Inglaterra. “A gente esperava que alguma justiça iria acontecer. Não imaginava que nada aconteceria dez anos depois. Só policiais promovidos, até o comandante da operação foi promovido.”

Alessandro ainda ironizou a fama que cerca as instituições europeias e que muitos, tragicamente inclusive a vítima de um erro fatal da polícia, insistem em acreditar.

“O Jean sempre falava que admirava a Justiça britânica e os policiais. Porque ele era como qualquer brasileiro. Pensava que aqui não acontece nada de errado, que só tem [problemas] no Brasil”, lembrou.  “Eles já começaram com mentiras desde o início. O comandante [da Polícia Metropolitana de Londres à época do caso] Ian Blair veio na televisão dizer que um terrorista tinha sido morto, que ele estava ligado diretamente aos atentados de sete de julho [de 2005]. Então, eles estão acobertando desde o início e nada foi feito apesar do que aconteceu com o Jean.

A família tenta agora rever os procedimentos da polícia britânica com um processo na Corte Europeia dos Direitos Humanos. Para Alessandro, esta é a última esperança de justiça.

“Os advogados já diziam desde o início que se não houvesse punição aqui, o caso seria levado à corte europeia. Ele era um imigrante que veio ganhar a vida aqui e foi morto. Isso com certeza tem um impacto muito grande.  Os advogados acreditam que a gente pode conseguir alguma coisa. Nós, depois de tudo que passamos, ainda ficamos ‘meio assim’. Mas a esperança é a última que morre. Ou nunca morre.”

A polícia metropolitana foi condenada a pagar uma multa na justiça inglesa pelo procedimento trágico. Um acordo de indenização com a família do eletricista brasileiro também foi firmado, mas o valor não foi revelado oficialmente.

Vivian Figueiredo, uma das primas de Jean Charles, comentou durante as homenagens desta quarta-feira a dor que a família dele sente pela morte repentina. “Para mim sempre será difícil. Não importa quanto tempo passe. Principalmente quando penso na injustiça que ocorreu com um inocente, meu querido primo.”

Ela ainda comentou o fato de ter se mudado para a Inglaterra por influência do primo e da relação próxima que os dois tinham. “O Jean foi a pessoa que me trouxe para este país. Foi quem me apresentou outros países na Europa. Ele me ajudou sempre com tudo que podia até ser morto. Ele é uma inspiração para mim porque, assim como eu, deixou sua pequena cidade para ganhar a vida e conhecer o mundo. E tudo que faço hoje não é apenas para mim, mas também pela memória dele.”