'Washington Post': Está na hora da União Europeia deixar a Grécia ir embora

'A realidade não respeita as ilusões da democracia', diz jornalista

O jornal americano Washington Post publicou no domingo (21/06) um artigo do colunista George F. Will sobre a crise da Grécia, que continua negociando com a União Europeia e corre o risco de deixar a zona do euro. Will, que já venceu o prêmio Pullitzer, defende a saída do país. 

“Agora os vêm os gregos confirmarem que Margaret Thatcher estava certa sobre governos socialistas: ‘Eles sempre duram até acabar o dinheiro dos outros’. A Grécia, berço da dramaturgia, está mergulhada em um melodrama absurdo sobre garantir outra injeção de dinheiro de credores internacionais. Isso acrescentaria outra pedra a uma montanha de dívidas de quase o dobro do tamanho do Produto Interno Bruto (PIB) da Grécia. Essa disputa prolongada vai resultar num massacre desejável se a Grécia der um calote, tornando-se assim um exemplo cada vez mais assustador para todas as democracias que distribuem créditos insustentáveis que reprimem o crescimento.

Em janeiro, os eleitores gregos deram poder ao partido de esquerda Syriza, dos quais um terço, segundo a revista The Economist, consiste em “maoistas, marxistas e defensores de Che Guevara.” O primeiro-ministro Alexis Tsipras, 40 anos, um estudante radical aposentado, imediatamente denunciou uma declaração da União Europeia criticando o desmembramento da Ucrânia pela  Rússia. Ele escolheu apenas um membro do gabinete com experiência anterior de governo — um líder do partido comunista stalinista da Grécia. O ministro de Tsipras da Cultura e Educação diz que a educação grega “não deveria ser governada pelo princípio da excelência… é uma ambição deformada.” Colocando em prática aquilo que prega, ele propõe abolir exames de admissão em universidades.

Os eleitores escolheram o Syriza porque prometeu reverter as reformas, particularmente das pensões e as leis trabalhistas, exigidas por credores, e resistir a novas demandas por austeridade. Tsipras imediatamente prometeu recontratar 12.000 funcionários públicos. Com sua estridência aumentando enquanto suas opções encolhem, ele diz que a União Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional estão tentando “humilhar” a Grécia.

Como alguém poderia humilhar um país que escolhe governos comprometidos com a economia Rumpelstiltskin, a crença de que a generosidade do governo pode dividir o ouro da riqueza nacional? A abordagem de Tsipras para apaziguar aqueles que detêm o destino de seu país em suas mãos é dizer que eles devem respeitar seu “mandato” para resistirem a eles. Ele acha que os eleitores gregos, ao fazerem promessas delirantes a eles mesmos, podem obrigar outros pagadores de impostos europeus a financiá-los. Tsipras, que diz que os credores estão “pilhando” a Grécia, está tentando pilhar os governos locais, resistentes a suas demandas extra-legais que pedem que eles lhe enviem suas reservas em dinheiro.

Yanis Varoufakis, o ministro das Finanças do governo grego, é um acadêmico admirador de John Nash, vencedor do prêmio Nobel, o gênio de Princeton retratado no filme “Uma mente brilhante,” que morreu recentemente. Varoufakis tem interesse no trabalho de Nash sobre a teoria dos jogos, especialmente a teoria de jogos cooperativos onde dois ou mais participantes almejam uma solução que seria melhor para todos do que se fosse buscada sem a cooperação. A ideia de Varoufakis sobre cooperação é de acusar os credores cujo dinheiro tem sido usado pela Grécia para viver um “afogamento fiscal simulado”. Tsipras recomenda aos credores da Grécia que leiam “Por Quem os Sinos Dobram,” romance de Ernest Hemingway sobre a guerra civil espanhola. Qual é sua mensagem passiva-agressiva? “Joguem amavelmente ou nos mataremos.”

Desde que se juntou à zona do euro em 2001, a Grécia tomou emprestado uma soma 1,7 vezes maior que seu PIB de 2013. Seu desemprego de 25% (50% entre jovens trabalhadores) resulta de um encolhimento de 25% do PIB. É um mendicante reduzido a esperar para “estender e fingir” para sempre. Mas estender a recuperação e fingir que os credores serão pagos algum dia encoraja outros socialistas europeus a contemplar o derramamento de dívidas — ou seja, o dinheiro de outras pessoas.

A Grécia, com apenas 11 milhões de habitantes e 2% do PIB da zona do euro, não deve causar uma contaminação ao deixar a zona do euro. Se também deixar a infame União Europeia, essa prova da mutabilidade do bloco pode incentivar os ‘euro-céticos’ britânicos quando, no final deste ano, a Grã-Bretanha terá um referendo sobre reivindicação da soberania nacional ao se retirar da União Européia. Se a Grécia estima que sua soberania está sofrendo com condições impostas por credores, por que está na UE, o ponto perverso que segundo ela está afogando as soberanias dos países com o objetivo de diluir a consciência nacional?

A União Européia tem uma bandeira que ninguém saúda, um hino que ninguém canta, um presidente cujo nome ninguém conhece, um parlamento cujos poderes são tirados de legislações nacionais, uma burocracia que ninguém admira ou controla e regras de retidão fiscal que nenhum membro é penalizada por ignorar. Entretanto, tem na Grécia um membro cujas dificuldades são maravilhosamente didáticas.

Isso não pode ser dito com muita frequência: não deve haver tanta destruição socialista. Os melhores desses punem credores imprudentes cujos empréstimos permitem que os socialistas sobrevivam, durante um tempo, com o dinheiro dos outros. O mundo, que deve muito ao legado da antiguidade grega, inclusive a ideia de democracia, deve à Atenas de hoje a notificação de que a realidade não respeita os delírios da democracia", conclui Will.