'Les Echos': Liberdade, Igualdade, Fraternidade… Segurança?

“Daniel Cohn-Bendit tinha uma fórmula feliz quando descreveu no meio dos anos 2000 os neoconservadores americanos como “bolcheviques” da democracia. Em nome de uma visão idealista da democracia, esses ideólogos não teriam levado os Estados Unidos e, com eles, uma grande parte do mundo a um impasse, ao qual estamos pagando o preço mais do que nunca?. De maneira diametralmente oposta, seria possível hoje, após os atentados de Paris, falar dos “bolcheviques da liberdade”? É o que questiona o jornal francês Les Echos, em matéria publicada nesta terça-feira (20/01).  

"A liberdade não tem preço e quantos foram mortos para defender esse bem único. Mas em nome de uma concepção sem limite algum da liberdade, podemos colocar vidas humanas em perigo, de maneira irresponsável?”, escreve Dominique Moïsi, que é professor no King's College de Londres, e conselheiro especial no Ifri (Instituto francês das relações internacionais)”

Ele continua sua análise: “Essa eterna questão da relação entre liberdade e segurança se coloca duplamente hoje tanto no que se refere aos próprios satiristas quanto aos cidadãos em geral diante da ameaça terrorista. Em 2006, eu fazia parte daqueles – muito mais numerosos no mundo anglo-saxão do que na França - que exprimiam reservas quanto à publicação das caricaturas do Profeta. Em nome da ética de responsabilidade, não me parecia sensato colocar em jogo a vida de vários seres humanos em nome do princípio absoluto de liberdade. Ainda hoje, eu não acho que se deva ferir deliberadamente a sensibilidade do Outra naquilo que ele pode ter de mais sagrado, o Profeta para os muçulmanos, o Cristo para os cristãos, a Shoah para os judeus. Não é a ilustração mais nobre do espírito de liberdade. Essas reservas não me impediram de estar na imensa massa daqueles que se manifestavam a favor da defesa de nossos valores no domingo, 11 de janeiro. Não se mata por causa de desenhos! 

Da mesma forma, já que convém fazer tudo para proteger a vida, porque um grupo internacional terrorista declarou guerra à França e mais amplamente à Europa, nos é necessário responder com uma determinação total à ameaça à qual somos confrontados. Isso implica ajustar nossos meios, sejam eles de segurança, sociais, diplomáticos, jurídicos ou morais à urgência da ameaça. Depois do ataque contra a “Charlie Hebdo”, os terroristas usavam coletes à prova de balas e armas mais modernas e mais eficazes que aquelas do policial encarregado de proteger os jornalistas. É inaceitável e constitui uma metáfora para nosso dever global de ajuste. Não se trata de deixar o espaço Schengen e de se fechar no interior de nossas fronteiras expulsando os imigrantes. Não há resposta ao terrorismo globalizado que não seja global. 

Não há em particular outras respostas que não sejam européias. Os eventos da semana passada na Bélgica são a prova. Os jihadistas de nacionalidade europeia voltando da Síria ou do Iraque constituem uma ameaça para a Europa inteira. Certamente, na Europa hoje - plagiando o título de uma obra de André Fontaine -, não se trata mais de “uma única cama para dois sonhos”, mas em vez disso, de “um só destino para dois pesadelos”. No centro e no leste da Europa, nos preocupamos mais com a Rússia de Putin do que com o “retorno” dos combatentes de Daesh ou da Al Qaeda. 

De maneira paradoxal, em matéria de meios tecnológicos ou mesmo de determinação histórica, o país da Europa que mais pode nos servir como modelo, é precisamente aquele que não faz parte do espaço Schengen e que encheu suas grandes cidades com telas de vigilância: a Grã-Bretanha. Não se trata de escolher entre o Big Brother e a liberdade. A questão é afirmar que em nome da própria proteção de nossos regimes democráticos, é preciso fortalecer nossas defesas e nossos espíritos. A América do Patriot Act e da guerra no Iraque é sem dúvida mais um aviso ou um contra-modelo. Não é o caso da Grã-Bretanha de 1940. Unido na resistência diante de um inimigo bárbaro, o país da Magna Carta Libertatum tinha então consentido sacrifícios em matéria de liberdades públicas. Com certeza a comparação é ousada. Não há similaridades entre 1940 e 2015. Em 1940, a ameaça da Alemanha nazista era direta e total. Em 2015, a ameaça é de outra natureza e de amplitude bem diferente. Nós devemos enfrentar alguns milhares de combatentes fanatizados prontos a matar e a morrerem para dar um sentido à suas existências. Mas nos dois casos, convêm notar a barbárie do adversário e o objeto de seu alvo privilegiado, os judeus”. 

“O que fazer para achar o ponto de equilíbrio mais justo possível entre segurança e liberdade? Se a Europa é percebida pelos jihadistas como o elo frágil do Ocidente, é a União européia inteira que deve se mobilizar e isso sem consideração de custo. Não se trata mais de déficits ou de equilíbrio orçamentário, o que está em jogo, é a vida de nossos concidadãos e o futuro de nossos sistemas democráticos diante da dupla ameaça dos terroristas e dos populismos. Os primeiros são uma ameaça para nossas vidas, os segundos para nossas almas. 

O combate será longo, como foi a guerra dos Trinta Anos ou mais recentemente a guerra fria. Seu desfecho se decidirá em essencial no exterior de nossas fronteiras mesmo se não devemos pretender fazer o papel do  deus ex machina. Em nossos territórios, é preciso que aceitemos adaptar nossas existências às exigências novas de nossa segurança, sabendo, é claro, que a segurança absoluta não existe. Tanto no interior quanto no exterior, convém antes de tudo fazer prova de determinação no longo prazo”, conclui o artigo de Dominique Moïsi.