'El País': O pesadelo chileno

Evo Morales pede ao papa Francisco para que medie conflito com Chile sobre saída ao mar para Bolívia

O jornal espanhol El País publicou nesta terça-feira (20/01) um artigo sobre uma disputa antiga entre Bolívia e Chile que ganhou há pouco um novo personagem na semana em que Evo Morales assume a presidência da Bolívia pela terceira vez. “No colorido juramento indígena haverá uma presença fantasmagórica: a de Francisco, o Papa. A última reunião do pontífice com Morales provocou um arrepio regional. Ao sair do Vaticano, Morales disse que o chefe da Igreja lhe pediu os antecedentes da disputa de seu país com o Chile para reivindicar uma saída para o mar. Os alarmes chilenos estão acesos. Por trás da tensão percebem-se vários sinais dos tempos. O ativismo diplomático de Bergoglio, as contradições do governo de Michelle Bachelet e o contraste entre dois modos de ser da América Latina”, escreve o jornalista Carlos Pagni.

“A disputa é um dos inúmeros conflitos limítrofes entre os países surgidos da derrocada do império espanhol. Essa querela, que desencadeou a Guerra do Pacífico de 1879, teria sido resolvida em 1904 com um tratado de paz pelo qual os bolivianos trocaram a clausura por uma ferrovia desde La Paz até o porto de Arica, direitos especiais para que seus produtos chegassem ao oceano e uma indenização de 300 mil libras esterlinas.

Mas as pretensões da Bolívia reapareceram. E os chilenos González Videla, Pinochet, Lagos e Bachelet, em sua primeira presidência, aceitaram negociá-las. Todos fracassaram”, lembra o jornalista.

Em abril do ano passado Evo Morales recorreu ao Tribunal de Haia, porque “dialogar com o Chile é continuar perdendo tempo”. O governo chileno ignorou essa jurisdição. E insistiu que não existe país sem saída para o mar que receba os benefícios da Bolívia: até o final de 2016 serão investidos 500 milhões de dólares (1,32 bilhão de reais) para melhorar o transporte dos produtos bolivianos até o mar.

A presidenta chilena não vai comparecer à posse de Morales e será representada pelo presidente da Corte. 

“Para um chileno não deve haver pior pesadelo que o surgimento de um Papa argentino advogando pelos bolivianos”, escreve o jornalista.

Ele prossegue: “A Santa Sé não comentou a deslealdade de Morales. Mas o contexto a torna verossímil. Bergoglio vem demonstrando uma inclinação irrefreável pela política internacional. 

Entre os diplomatas de Bachelet há um pressentimento mais difícil de expressar: que no interior do pontífice continue a palpitar aquele jesuíta politizado, com afinidades com o nacionalismo peronista, que nos anos 1970 citava o fato de a Bolívia não ter saída para o mar como exemplo da opressão que ofende o mundo. Entre 1958 e 1960 Francisco viveu em Santiago. Estudou arte e literatura na célebre missão do padre Hurtado. Mas essa experiência talvez não seja suficiente para exorcizar o perigo que Bachelet teme. Morales sabe pressionar. Ele revelou que lhe pediram os antecedentes do conflito e, de imediato, ele anunciou que o papa vai visitar seu país em julho.

Talvez Bachelet encontre alívio no Vaticano, onde é possível que vá no próximo mês com Cristina Kirchner. O motivo pode ser inoportuno: agradecer a mediação entre Chile e Argentina do cardeal Antonio Samoré, falecido em 3 de fevereiro de 1983.

A intenção papal de ajudar a Bolívia provoca reações contraditórias entre os católicos chilenos. Sobretudo no cardeal Francisco Errázuriz, nomeado por Bergoglio para a comissão que reforma a Cúria romana.

Em contrapartida, o Pontífice vai reforçar a simpatia que a esquerda populista latino-americana nutre por ele, que enxerga o conflito entre Bolívia e Chile como o último muro a ser derrubado. Em 2003, Hugo Chávez ofendeu Ricardo Lagos, dizendo que sonhava em tomar banho de mar numa praia boliviana. Mas a tensão entre os dois países revela outro ponto de discórdia. Morales disse que só admitirá que Bachelet é socialista se ela abandonar a Aliança do Pacífico. E seu vice, Álvaro García Linera, descreve essa associação entre Chile, Peru, Colômbia e México como “a represália dos Estados Unidos pela nova autonomia regional”.

Bachelet, em um movimento involuntário, parece representar o papel que lhe designam na Bolívia. Antes de se reunir com seus embaixadores, ela vai avaliar na Filadélfia o tratado de livre comércio com os Estados Unidos. Uma viagem dedicada às fobias de Evo Morales”, conclui o artigo do jornal El País.>> La pesadilla chilena