'NYT': Putin acentua política externa e metas econômicas depois de ‘ano difícil’

Presidente russo reafirma intenção de voltar a fazer de seu país uma grande potência

O New York Times publicou nesta sexta-feira (5/12) uma matéria sobre o discurso feito pelo presidente russo Vladimir Putin em Moscou, na quinta-feira. “Putin disse que a Rússia enfrentou um “ano difícil” mas prometeu que o país vai seguir com sua política externa independente e os objetivos econômicos apesar dos persistentes esforços do ocidente para enfraquecê-la.

Putin usou seu discurso anual do estado da União para reafirmar a intenção do Kremlin em restaurar o status de grande potência da Rússia e reafirmar ao povo russo que ele está enfrentando os problemas na economia”, escreve Neil MacFarquhar.

O jornalista continua: “Em um altar localizado num vasto hall de mármore no Kremlin lotado com a elite política do país, Putin se referiu à Crimeia como lugar sagrado ou ‘Monte do Templo’ da Rússia e disse que sua anexação da Ucrânia em março confirmou que Moscou poderia proteger cidadãos russos em qualquer lugar.

Antes do discurso, houve ampla especulação na Rússia sobre se Putin favoreceria conservadores que querem persistir num confronto com o ocidente apesar dos custos econômicos ou os liberais que acham que essa atitude trouxe um desastre para a União Soviética.

Putin fez um pouco dos dois, adotando uma postura desafiadora em política externa mas comprometendo-se a colocar em prática políticas que ajudarão pequenas e médias empresas. A maioria dos liberais acredita que  libertar o setor privado é a chave para resolver os problemas econômicos da Rússia já que o estado  controla 55% da economia.

O líder russo usou o mesmo tom indignado e  raivoso que adotou seguidamente em seus pronunciamentos públicos desde que a crise ucraniana irrompeu em março. O ocidente reagiu à anexação da Crimeia e o conflito na Ucrânia impondo sanções, mas Putin afirmou que esses fatos foram apenas um pretexto".

“Esta não é só uma reação nervosa dos Estados Unidos e seus aliados à nossa posição em relação a acontecimentos e o golpe na Ucrânia,” disse ele no início de seu discurso de 70 minutos.

“Se nada disso tivesse acontecido, eles viriam com um outro jeito de reprimir a Rússia,” disse Putin, acusando o ocidente de insistir na mesma política por “décadas e até mesmo séculos”. Sempre que o ocidente sente que a Rússia está ficando forte demais, recorre a esse tipo de medida, ele acrescentou.

Putin mais uma vez descartou a ideia de que a  insurreição popular em Kiev, capital da Ucrânia, foi suficiente para derrubar um presidente próximo ao Kremlin. Ele acusou Washington de manipular eventos no país, dizendo que quando se tratava de negociações sobre resolução da crise, ele nunca tinha certeza se deveria  se referir a ucranianos ou aos Estados Unidos.

Ele salpicou o discurso com numerosas referências à sua linha-padrão de que a Rússia continuaria sendo um porta-bandeira mundial de valores conservadores.

Mas ele também disse que a Rússia não quer restaurar a Cortina de Ferro, que o país está aberto ao mundo e que nunca “procura paranoia, suspeitas e inimigos.” Isso vem como uma surpresa para alguns, especialmente empregados de organizações não-governamentais que foram taxados de “agentes estrangeiros” ao longo dos últimos anos e esses grupos foram fechados ou perseguidos para que pagassem altas e novas deduções fiscais.

A parte inicial do discurso focou nos problemas da política estrangeira, com Putin ainda surfando numa onda de apoio popular pela anexação da Crimea.

Putin fez uma breve referência a conflitos que vararam a noite em Grozny, a capital da Chechênia. A Rússia foi capaz de enfrentar essa ameaça de terrorismo, ele disse.

Mas o grosso do discurso foi focado na economia.

Depois de 15 anos de prosperidade com Putin, os russos estão cada vez mais preocupados com o risco de seus padrões de vida serem afetados a medida em que os preços em queda do petróleo se misturam aos problemas trazidos pelas sanções do oeste imposta em resposta à ação da Rússia desestabilizando a Ucrânia.

Putin afirmou que o país deveria usar o atual confronto com o ocidente para tentar recuperar sua economia, e depender mais de si mesmo para comida, remédios e tecnologia. Assim como a Rússia um dia superou limites no espaço e na energia atômica, ele disse, deveria também se tornar um líder em criar bens que o mundo quer.

Suas propostas econômicas incluíram uma política de isenção fiscal a qualquer um que tenha trazido para casa sua fortuna do exterior, prorrogação do governo nas inspeções para pequenas e médias empresas, e um congelamento de quatro anos na taxa de imposto.

Putin disse que a queda do preço do rublo, em torno de 33 ante o dólar no começo do ano para em torno de 53 agora, foi causada em parte por especuladores de moeda. O governo sabe quem eles são,  ele disse, num tom ameaçador.

O líder russo reconheceu que a inflação é um problema, e fez um apelo para que governos regionais ajudem a controlar o preço dos alimentos. Apesar de não ignorar os problemas econômicos em curso, Putin não entrou em detalhes que poderiam enfatizar sua gravidade.

A economia está com certeza afundando, com o governo admitindo pela primeira vez esta semana que a Rússia vai enfrentar uma recessão no ano que vem. Espera-se que a economia tenha uma contração de pelo menos 0,8% em vez de crescer 1,2%, como havia sido projetado anteriormente. Economistas independentes dizem acreditar que a contração poderia ser de até 2 ou 3%.

Cada semana traz um turbilhão de novos  resultados ruins na economia. A economia russa é  excessivamente dependente de exportações de petróleo, com o orçamento construído num preço de ao menos US$ 100 por barril. Agora está operando num preço aproximado de US$ 70.

O rublo teve forte queda frente ao dólar e o euro, perdendo um terço de seu valor. A inflação, escalando a um total de 9%, rondou os 20% em alimentos depois que a Rússia cortou importações de produtos básicos como carne, peixes, laticínios, frutas e verduras vindos do ocidente.

Espera-se que as fugas de capitais cheguem a US$ 128 bilhões este ano.

Mas economistas disseram que o pior problema é que a dívida corporativa da Rússia está enorme, em torno de US$ 650 bilhões, já que as sanções bloquearam empresas de mercados ocidentais de crédito”, encerra a matéria do New York Times.