'Le Monde': O Irã e a tentação do acordo nuclear

Em uma reviravolta da história, o Irã e o 'grande satã americano' de ontem têm o mesmo inimigo hoje

O jornal francês Le Monde publicou hoje um artigo sobre uma mudança que ocorre no cenário do Oriente Médio, com o crescimento do Estado Islâmico. "Vale mais um acordo imperfeito ou nenhum acordo? Essa questão central em toda negociação diplomática é colocada com um cuidado especial quando se trata do Irã e da arma atômica. E a resposta não define somente a sorte do Irã, mas terá consequências palpáveis sobre o equilíbrio nessa parte do mundo e mais além", escreve Pierre Haski.

Ele prossegue sua análise: "Os negociadores iranianos e aqueles do "P5+1" segundo o jargão diplomático, ou seja chineses, americanos, russos, franceses, britânicos e alemães, assim como os representantes da União Europeia tentem concluir um acordo, antes da data limite de 24 de novembro, sobre a redução do número de centrífugas e outros parâmetros técnicos destinados a garantir que o Irã não detenha tão cedo uma arme atômica em troca de uma suspensão das sanções internacionais. Como as datas limites não são nada sagradas, os negociadores ainda têm muito trabalho pela frente.

Mas cada um sabe que o desafio vai muito além da arma atômica, principalmente desde que a irrupção brutal dos jihadistas do autoproclamado Estado islâmico modificou o equilíbrio no mundo árabe-muçulmano. Por uma dessas reviravoltas da história, o Irã e o grande Satã americano de ontem possuem o mesmo inimigo, o que não os torna necessariamente aliados. Mas isso pode ajudar...  Como sinal dos novos tempos, Barack Obama escreveu uma carta improvável ao aiatolá Ali Khamenei, o guia supremo iraniano, o homem que terá a última palavra - e recebeu uma resposta. Se tornou quase banal encontrar o presidente iraniano Hassan Rohani, um moderado no contexto local, contrariamente à seu predecessor, Mahmoud Ahmadinejad, ao lado de quem ninguém posava para fotos. Mas um intercâmbio Obama-Khamenei permanece inédito".

Faz muito tempo, é claro, que se sabe que o Irã é tudo menos monolítico, que a estrutura do poder não parece com nenhuma outra, com uma divisão desigual entre o poder teocrático do guia e aquele mais modesto do presidente eleito. Faz muito tempo também, que se entendeu que existia uma sociedade civil vibrante apesar do jugo conservador, e que foi às ruas quando foi roubada na eleição de 2009, ou inclinada a se mobilizar quando as mulheres têm algumas liberdades solapadas pelos códigos rigorosos.

No último domingo, Teerã foi bloqueada por uma multidão imensa reunida graças às redes sociais e aos SMS trocados entre jovens, não para defender a revolução, mas para chorar por uma pop star, Morteza Pashaei, morta de um câncer com apenas 30 anos. A nova geração tem sede de normalidade em uma sociedade que não o é.

Isso não basta para ocultar a natureza teocrática e autoritária do regime, suas ações no exterior (Síria, Líbano...), e claro sua ambição nuclear que assusta. Como escrevia o especialista da região Jean-Pierre Filiu no site de notícias Rue89, "o Irã, bombeiro incendiário do Oriente Médio, não saberia ser o policial".

"Mas a mudança de contexto regional e as evoluções internas levam as diplomacias ocidentais a privilegiar a realpolitik e a não rejeitar a possibilidade de um acordo, ainda que imperfeito. Um acordo que passaria também, não é indiferente nesses tempos com cheiro de guerra fria, pela Rússia, membro do "P5+1", avalista em potencial do respeito de certas cláusulas. Tudo isso se produz para grande desgosto de Israel, que faz campanha intensa contra um acordo que o Estado hebreu julga perigoso, mas também da Arábia Saudita que afirma o mesmo, mas discretamente.

Nessa região profundamente desestabilizada, a tentação de uma aproximação com o Irã, um dos estados chave do Oriente Médio, é forte. Com a condição de que o acordo seja o menos imperfeito possível...", conclui o colunista do Le Monde.