'NYT': Protegendo dados de seus ladrões

Empresas de internet estão do lado do Estado ou dos consumidores quando à proteção de dados?

O jornal New York Times publicou um artigo nesta quinta-feira sobre uma questão polêmica: a privacidade na internet e as disputa entre empresas e estados. “Quando Ted Nelson publicou “Computer Lib,” um manifesto para colocar o poder dos computadores nas mãos das pessoas, era uma proposta radical. Em 1974, computadores custavam US$ 5 milhões, eram em sua maioria desenvolvidos pelo Pentágono e preenchiam uma sala inteira.

“Dizer que todo mundo deveria ter um computador era como dizer que todo mundo deveria ter um jato,” disse Nicco Mele, um expert em história digital na Kennedy School of Government em Harvard. Hoje, cada iPhone é imensamente mais poderoso do que um super computador nos anos 1970”, escreve Katrin Bennhold.

Nelson era um herói dos pioneiros da era digital que surgiu no meio dos protestos contra a Guerra do Vietnã, o movimento pelos direitos civis e uma latent desconfiança no Estado. Mais tarde, Bill Gates comprou os direitos do livro de Nelson, cuja capa apresenta um punho levantado. Steve Jobs disse que se inspirou nesse livro.

A colisão dos movimentos da contra-cultura americana com a tecnologia foi um momento decisivo. O ethos dos antigos nerds era radicalmente anti-establishment: eles queriam tirar o poder das instituições e dar aos indivíduos  (e sim, ganhar muito dinheiro no processo).

Quatro décadas depois, os antigos revolucionários viraram bilionários e suas companhias são mais poderosas do que vários países. Num momento em que continuam repercutindo as revelações de monitoramento digital feitas pelo ex-prestador de serviços da NSA (National Security Agency) Edward J. Snowden, surgiram duas difíceis questões: quando se trata de proteção de dados, de que lado estão empresas como Google, Facebook e Twitter? E qual poder que nós, cidadãos portadores de smartphones, realmente temos?

As empresas reagiram aos protestos do público sobre o papel delas na espionagem em massa acelerando os esforços para encriptar mais dados em telefones e sistemas de email. Muitas publicaram o número de pedidos dos governos para entregar dados de usuários e alegaram que as agências de governo deveriam exibir um aviso quando pedem acesso a informação. “Fomos colocados sob os refletores, mas as empresas realmente fizeram muitas mudanças,” disse Richard Allan, responsável pelo planejamento do Facebook para a Europa que usa o software Tor, um sistema que permite aos usuários que se comuniquem anonimamente na Internet. “Eu ainda tenho que ver governos empreenderem reformas significativas  pela transparência.”

As acusações são mútuas: no mês passado, o diretor do F.B.I., James B. Comey, criticou alguns esforços pela encriptação, dizendo que o “pêndulo pós-Snowden foi longe demais.” Este mês, Robert Hannigan, recém nomeado diretor da GCHQ, agência de espionagem eletrônica britânica, acusou as empresas de internet de fornecer “escolha de redes de comando e controle para terroristas e criminosos.”

Quase tão marcante quanto esse ataque muito pública num país que durante a Guerra Fria nem reconhecia a existência de seus vários serviços secretos,  estava a falta de qualquer reconhecimento de que as próprias agências de inteligência podem ter algo a que responder, disse Timothy Garton Ash, um professor de estudos europeus na Universidade de Oxford, que está trabalhando num livro sobre liberdade de expressão. “Elas estão trabalhando duro para tentar transferir os holofotes do escrutínio público para as empresas,” disse ele.

Pressionando as empresas a cooperarem mais,  Hannigan tentou tranquilizar os cidadãos sobre a segurança de seus dados. Mas como Garton Ash colocou, “O argumento mais forte de Snowden é o próprio Snowden: se eles são tão bons em proteger nossos dados, porque eles são tão ruins nisso?”

Se governos não protegem a privacidade, o único jeito de fazê-lo é construindo segurança na tecnologia, disse Gus Hosein, chefe do Privacy International, um grupo de advocacia com sede em Londres. “As companhias de alta tecnologia nunca serão nossos amigos —  o modelo de negócio delas é a exploração dos dados de usuários,” disse ele. “Mas são um ponto muito forte de pressão para nos ajudar a obtermos o que queremos. Temos que tentar fazer com que elas atuem no interesse dos usuários.”

Quanto mais Google e Facebook se tornam o establishment que eles desafiaram, mais elas próprias ficam vulneráveis ao poder que elas investiram nos indivíduos, disse Mele, que no ano passado publicou “The End of Big,” um livro sobre o que significa viver em um mundo socialmente conectado. “Facebook está com medo de concorrentes,” ele disse. “Lembra do MySpace? Ou antes disso, do Friendster? Eles não eram comprovadamente diferentes do Facebook. E não vamos esquecer que o Facebook não é de fato tão lucrativo.”

Até o Google, com seus 67,6% no mercado de ferramentas de busca, enfrenta rivais no Yahoo e até em novos  concorrentes como o DuckDuckGo.com, que oferece uma experiência de busca mais privada, segura e “user-friendly” . Numa época em que a legislação brasileira está seriamente considerando leis que efetivamente tornariam ilegais empresas de alta tecnologia com sede nos Estados Unidos - por medo de cumplicidade - e as agências do governo alemão buscam fornecedores alternativos, poderiam ainda as alianças mudarem a favor de cidadãos que têm consciência sobre a privacidade e estão presos entre as superpotências de governos e empresas? 

“Em termos de força do usuário, ela certamente está lá,” disse Mele. “A questão é: será que vamos usá-la?”