‘NYT’: Quando o governo é bem sucedido

Há muita notícia boa que os republicanos não querem que você perceba, escreve Paul Krugman

O New York Times publicou nesta terça-feira (18/11) um artigo do economista norte-americano Paul Krugman onde avalia a importância de políticas públicas. 

“O grande pânico americano de ebola em 2014 parece ter chegado ao fim. A doença ainda assola a África, e como qualquer epidemia, há sempre o risco de um novo surto. Mas nenhum novo caso surgiu nos Estados Unidos e a ansiedade popular está passando rapidamente.

Mas antes de seguirmos em frente, vamos tentar aprender algo a respeito do pânico.

Quando o temor estava em seu auge, o ebola não era apenas uma doença – era uma metáfora política. De modo mais específico, ele era apresentado pela direita americana como um símbolo do fracasso do governo. Os suspeitos habituais alegavam que o governo Obama não estava fazendo seu trabalho e, além disso, insistiam que políticas convencionais eram incapazes de lidar com a situação”, lembra o economista.

Ele continua sua análise: “Importantes republicanos sugeriam que ignorássemos tudo o que sabíamos sobre a doença e recorrêssemos a medidas extremas, como proibições de viagem, além de zombarem das alegações de que as autoridades de saúde sabiam o que estavam fazendo.

Adivinhe: essas autoridades realmente sabiam o que estavam fazendo. A verdadeira lição da história do ebola e que às vezes a política pública é bem-sucedida, apesar dos opositores gritarem sobre fracasso. E esta não é a única história recente que mostra isso”.

“Aqui está outra: lembra da Solyndra? Era uma empresa de energia renovável que tomou empréstimos usando garantias do Departamento de Energia, então faliu, custando US$ 528 milhões ao Tesouro. Os conservadores atacaram esse prejuízo impiedosamente, o transformando no símbolo do que alegavam ser um capitalismo clientelista desenfreado e um imenso desperdício de dinheiro do contribuinte.

Os defensores do programa de energia tentaram em vão apontar que qualquer um que faz muitos investimentos, seja o governo ou um capitalista de risco privado, verá alguns de seus investimentos fracassarem. Por exemplo, Warren Buffett é uma lenda do investimento, de modo justificado –mas ele também teve sua cota de prejuízos, como a perda US$ 873 milhões que ele anunciou neste ano por seu investimento em uma empresa de energia do Texas. Sim, um prejuízo maior do que o federal na Solyndra”, escreve o economista.

“A pergunta não é se o Departamento de Energia fez alguns empréstimos ruins –se não fez, é porque não está se arriscando o bastante. A pergunta é se existe um padrão de empréstimos ruins. E a resposta é que não existe. Na semana passada, o departamento revelou que o programa que incluía a Solyndra está a caminho de gerar lucros de US$ 5 bilhões ou mais.

E há a reforma da saúde. Como de costume, grande parte do diálogo nacional a respeito da Lei do Atendimento de Saúde a Preço Acessível está sendo dominado por falsos escândalos alardeados pelos inimigos da reforma. Mas se você olhar para os resultados de fato até o momento, eles são notavelmente bons. O número de americanos sem acesso a atendimento de saúde caiu acentuadamente, com cerca de 10 milhões de pessoas antes não seguradas, agora contando com cobertura.

Os custos do programa permanecem abaixo das expectativas, com a alta dos preços para o próximo ano muito abaixo dos índices históricos de aumento; e uma nova pesquisa Gallup aponta que os novos segurados estão muito satisfeitos com sua cobertura. Segundo qualquer padrão normal, trata-se de um importante exemplo de política bem-sucedida, beirando o triunfo”, diz Paul Krugman.

“Um último item: você se recorda de todo o escárnio a respeito das alegações do governo Obama de que os déficits orçamentários, que subiram durante a crise financeira, cairiam assim que a economia se recuperasse? Certamente a explosão de custos da reforma da saúde, somada ao programa de estímulo que se tornaria um elefante branco perpétuo, levariam a prejuízos imensos, certo? Bem, não –o déficit de fato caiu rapidamente, e como proporção do produto interno bruto, está de volta aos níveis pré-crise.

A moral dessas histórias não é que o governo está sempre certo e sempre é bem-sucedido. É claro que há decisões ruins e programas ruins. Mas o discurso político americano moderno é dominado por cinismo barato a respeito da política pública, um desprezo por qualquer esforço para melhorar nossas vidas. E esse cinismo barato não é justificável. É verdade que os políticos que odeiam o governo às vezes podem transformar suas previsões de fracasso em profecias autorrealizáveis, mas quando líderes querem fazer com que o governo funcione, eles podem”, sentencia o colunista do New York Times.

“E vamos deixar claro: as políticas públicas das quais estamos falando aqui são importantes demais. Nós precisamos de uma política pública de saúde séria, e não fomentação do medo, para conter doenças contagiosas. Nós precisamos de uma ação do governo para promoção da energia renovável e combate à mudança climática. Programas de governo são a única resposta realista para dezenas de milhões de americanos que, caso contrário, não teriam atendimento de saúde essencial.

Os conservadores querem que você acredite que apesar das metas dos programas públicos de saúde, energia e outros serem louváveis, a experiência mostra que esses programas estão condenados ao fracasso. Não acredite neles. Sim, às vezes as autoridades do governo, por serem humanas, erram. Mas, na verdade, estamos cercados por exemplos de sucesso do governo, o que eles não querem que você perceba” encerra Paul Krugman.