‘Página 12’: A unidade latino-americana

O jornal Página 12, publicou nesta quinta-feira, uma matéria falando sobre a relação entre os países da América do Sul. O autor é Oscar Laborde e volta no tempo, lembrando uma antiga fala do general argentino Juan Perón: “A República Argentina, sozinha, não tem unidade econômica; o Brasil, sozinho, não tem unidade econômica; o Chile, sozinho, tampouco tem unidade econômica; mas esses três países unidos formam, no momento atual, a unidade econômica mais extraordinária do mundo inteiro, principalmente para o futuro, porque toda essa imensa disponibilidade constitui sua reserva. Estes são países reserva do mundo...” Assim explicava Perón no ano de 1953, naquela que hoje é a Escola de Defesa Nacional, seu projeto ABC, diz Laborde.

Ele continua: “O presidente argentino não só tinha realizado uma “leitura” muito mais abrangente das consequências do conflito armado com epicentro na Europa, que tinham detido o fluxo de matérias-primas e produtos elaborados al continente americano, sino que isso podia permitir o desenvolvimento econômico dos países sulamericanos, substituindo importações e ampliando o mercado de consumo que envolveria milhões de pessoas.

Essa concepção e as ações que, paulatinamente, o governo argentino foi empreendendo, significavam uma mudança qualitativa na relação com os setores de poder no mundo e, acima de tudo, fortaleciam as relações entre povos irmãos que, até esse momento, viviam brigados. As hipóteses de conflito de nosso país, a Argentina, estavam colocadas precisamente com o Chile e diante de uma sempre latente invasão brasileira.

Nesse discurso, Perón faz um repasse das ações empreendidas para Carlos Ibáñez del Campo (do Chile) e Getúlio Vargas (do Brasil). Com o primeiro deles assina um acordo aduaneiro em 1953 que colocava o epicentro na produção industrial e estabelecia vínculos bilaterais que escandalizaram a chancelaria brasileira – funcional aos interesses norte-americanos – que naquele momento negociava com a Argentina um acordo de características iguais”.

“Getúlio Vargas foi pressionado para não cumprir o compromisso assumido antes de ser chefe de Estado com o próprio Perón, e sua atitude em defesa dos setores populares fez com que os grandes grupos de poder pedissem sua renúncia. Em vez disso, preferiu suicidar-se em 1954, não sem deixar de apontar em seu testamento quem eram os sabotadores do seu governo.

Ficou assim truncada uma das tentativas mais importantes em gestar um processo de integração regional, afastado dos grandes centros de poder do mundo e das políticas imperiais”, lembra o autor do artigo.

“A Terceira Posição, além do seu componente doutrinário, teve na implantação do Pacto ABC um correlato na prática e na possibilidade de construir um novo cenário sul-americano.

Durante vários anos, este discurso do general Perón permaneceu em segredo e sua autoria foi questionada; até que, em 1967, ele mesmo reconheceu sua autenticidade.

Existe agora um novo processo de integração regional, interpelado e atacado pelos mesmos grupos econômicos externos e internos. Três mulheres: Dilma Rousseff, Michelle Bachelet e Cristina Fernández de Kirchner, junto com os presidentes do Uruguai, Bolívia, Venezuela e Equador, assumem o desafio de consolidar esta nova época que atravessamos.

O Pacto ABC de Perón representa, então, um espelho a partir do qual se pode aprender, analisando pontos fortes, contradições e a integralidade do processo histórico que hoje estamos atravessando”, conclui Laborde.