‘El País’: O ebola da América Latina

Violência é a grande epidemia regional que está devastando população jovem da região

O jornal espanhol El País publicou nesta quarta-feira (12/11) um artigo de Laura Chinchilla Miranda, que foi presidenta da Costa Rica de 2010 a 2014 e vice-presidenta de 2006 a 2010.

Ela escreve sobre aquele que considera ser o maior mal da América Latina: a violência, que atinge principalmente os jovens.

“A América Latina é uma região de contrastes. Na última década, as nações latino-americanas, em seu conjunto, experimentaram as maiores taxas de crescimento desde os anos 60 e sua participação na economia global passou de 5% para 8%. Entre 2002 e 2012, a pobreza diminuiu de 44% para 29%, o desemprego foi reduzido em 35%, e a classe média cresceu de 22% para 34%”, escreve Chinchilla.

“Mas ao mesmo tempo em que assistíamos a tão alentadores cenários no âmbito econômico e no social, um potente vírus se estendia por vários desses países e seus graves sintomas chegavam às principais manchetes dos meios de comunicação, locais e estrangeiros. As múltiplas e complexas causas da doença desafiaram os melhores acadêmicos e especialistas internacionais, que por muitos anos procuraram diagnosticá-la”, continua a ex-presidenta, em seu artigo.

“Pressionados pela justificada ira e impaciência popular diante dos devastadores efeitos desse mal, alguns tomadores de decisão se apressaram em receitar medidas que, na verdade, postergaram o tratamento adequado do problema, contribuindo para seu agravamento. É uma doença que vem devastando a população de alguns países latino-americanos, especialmente a população mais jovem. É uma doença que, não contente em ceifar vidas humanas, também corrói os próprios fundamentos da institucionalidade e põe em risco o pacto social fundamental.

A violência é a grande epidemia que tem flagelado a América Latina. Seus antecedentes fazem presumir que tende a ser endêmica na região. Nos últimos anos, manifesta-se por meio da delinquência comum e organizada; no passado, veio pela mão da repressão política. Embora a onda democrática que cobriu praticamente todas as nações latino-americanas pareça ter enterrado para sempre o passado de horror e perseguição que abalou a região, ainda ecoam em comissões de investigação e salas de julgamento os testemunhos de familiares e vítimas da violência provocada pelos despóticos regimes militares”, observa Laura Chinchilla.

A ex-presidenta da Costa Rica lembra como mudou o perfil da violência no continente: “Várias décadas depois da epidemia de violência política, o vírus sofreu uma mutação para a violência criminal. Esta chegou a mostrar seus piores efeitos na Colômbia e no Peru e hoje faz o mesmo no México e no norte da América Central, mas nenhum país está isento dela: atinge a todos em diferente escala. De acordo com o PNUD, entre 2000 e 2010, a taxa de homicídios cresceu 11% na América Latina, enquanto diminuiu ou se estabilizou na maioria das regiões do mundo.

Durante esse período, mais de um milhão de vidas humanas foram perdidas por causa da violência criminal, ou seja, perto de 100 mil mortes por ano. Como se não bastasse a perda de vidas humanas, a violência atinge com particular intensidade a população mais jovem – o bem mais valioso das nações latino-americanas – , para a qual o risco de ser vítima de um homicídio doloso é mais do que o dobro comparado com o risco do resto da população”.

“Outros efeitos da criminalidade revelam-se igualmente devastadores em uma multiplicidade de aspectos. Para sociedades com níveis de desenvolvimento baixo ou médio, gastam-se recursos em quantidades que em alguns países chegam a 10% do PIB. Cidades e nações inteiras experimentam quedas drásticas no turismo ou nos fluxos de investimento, freando o crescimento e subtraindo competitividade de suas economias. A desconfiança e o temor se apoderam dos cidadãos, debilitando o capital social, uma das fortalezas do desenvolvimento latino-americano. Como corolário, as instituições públicas acabam sendo alvo de críticas e descontentamento e respostas fora do marco da lei são incentivadas, pondo em risco os ainda precários processos de consolidação da democracia e do Estado de Direito.

Contudo, em vista da gravidade do quadro, mais recentemente têm sido observados avanços no debate público e na natureza das medidas que começam a ser adotadas para enfrentar o problema. Hoje, ao lado de cenas de perda e dor, registram-se também experiências bem-sucedidas, que conseguiram conter e reverter o avanço da violência criminal mediante abordagens integrais e multidisciplinares.

Hoje, diante das falidas receitas do populismo repressivo e as políticas de “mão de ferro”, fortalecem-se os enfoques centrados na prevenção e no tratamento das causas da violência.

Hoje, frente à aceitação sem questionamentos da doutrina da “guerra contra as drogas” que prevaleceu no passado, abriu-se um debate que defende cenários alternativos para a gestão do fenômeno do narcotráfico, um dos principais fatores de violência na região. Vemos, assim, a possibilidade de um leque de políticas públicas poder finalmente encontrar as chaves para o tratamento dessa grave epidemia”, escreve.

“É por isso que, parafraseando um poeta de minha terra que disse que “nunca é mais escuro que quando está prestes a amanhecer", alguns percebem um raio de luz cintilando sobre o horizonte de perda e dor que hoje se estende sobre certos países da região. É a luz que irradia a esperança de ver, enfim, algumas respostas que nos permitam conter a epidemia que tirou mais vidas humanas na história da América Latina”, conclui o artigo de Laura Chinchilla.