UE: aumenta número de jovens que não estudam nem trabalham

Os "nini" tiveram um aumento de 69% nos últimos três anos

Aida Diaz teve uma educação tradicional, cursou o ensino médio e, em seguida, fez uma universidade graduando-se em Biblioteconomia e Ciência da Informação. Ela não hesitou em aceitar um emprego de garçonete depois de esgotar seus esforços e procurar em vão por um trabalho na sua área. Mas agora não encontra nem mesmo no setor de alimentação onde trabalhava. Aida, 26 anos, desempregada, representa a nova cara dos jovens que não estudam e nem trabalham, os chamados “nini” - uma parcela que aumenta as estatísticas e que continua a crescer na Espanha. De acordo com o mais recente estudo “Panorama da Educação” da Organização de Cooperação e Desenvolvimento (OCDE), de 2011, os que se encontram nessa situação representam 24,4% dos jovens espanhóis entre 15 e 29 anos , ou seja, cerca de dois milhões de pessoas.

Durante a crise, esse número passou de 16,8% em 2008, para a 24,4% atualmente, mas a percentagem de jovens com diploma de curso superior, que não estudam nem trabalham, aumentou nesse período em 69% chegando a 21,4% do total de jovens espanhóis. A maioria deles, no entanto, não corresponde a esse perfil  dos “nini”, que existe no imaginário coletivo e que aponta para um jovem um pouco indeciso, que não estuda e tão pouco gosta de trabalhar.

O abandono escolar precoce (entre jovens de 18 a 24 anos), embora ainda alto, caiu para seu nível mais baixo ( 24,9%). O relatório da OCDE observa que " a percentagem de jovens que continuam a estudar depois de terminar o ensino obrigatório tem crescido a um ritmo mais rápido do que a média dos países da OCDE. Em 2008, 81% dos espanhóis de 15 a 19 anos e 21% dos 20 aos 29 estudava, enquanto em 2011 esses percentuais eram de 86% e 26%, respectivamente. Nos países da OCDE, o mesmo levantamento aponta que houve um aumento de 81% para 84% e de 25% para 28%, respectivamente.

Em todo caso, o maior percentual de ninis está entre aqueles que deixaram os estudos mais cedo (28,9%). Mas, ao contrário da maioria dos países, a taxa mais baixa na Espanha está entre os diplomados do ensino médio (18,7%), diz o professor de economia José García Montalvo, e não entre os graduados.

Muitos destes últimos, como Aida Diaz, não seguem estudando porque não podem. "Com o aumento das mensalidades eu não tenho condições de pagar estando desempregada e muito menos minha família", diz ela. Os preços das matrículas subiram 16% em média na Espanha, com picos de até 50% em algumas escolas e cerca de 69% nos cursos de pós graduação, tornando-se impeditivo para qualquer diplomado poder continuar seus estudos.

Aida Diaz está há um ano desempregada, mas, de acordo com os cálculos da OCDE, ainda terá mais um período pela frente nessa situação. A agência acredita que a juventude espanhola, entre 15 e 29 anos, passará entre um a dois anos e meio desempregados e inativos. A média da OCDE é de um ano a um ano e quatro meses. É preciso levar em conta que quando se fala de desemprego entre os jovens, se considera 57% da população economicamente ativa, deixando de fora os alunos que nunca trabalharam.

Em todo caso, as vantagens de se estudar mais são evidentes, mesmo em tempos de crise, ainda que as médias não consolem pelo fato de mostrar o lado obscuro da estatística. Entre 2008 e 2011, a taxa de desemprego subiu de 13,2% para 26,4% entre aqueles que estudaram apenas até o ensino fundamental e de 9,3% para 19,2% entre aqueles com ensino médio e de 5,8% para 11,6% entre os que possuem diploma superior.

"O alto nível de desemprego juvenil não é inevitável, mesmo durante uma crise econômica é um produto da interação entre as circunstâncias econômicas e políticas", disse o secretário-geral da OCDE, Angel Gurría. "O que mais importa são as decisões tomadas pelos países na distribuição de gastos e as políticas implementadas para melhorar a eficácia e relevância da educação que oferecem", acrescentou ele.

O secretário de Estado da Educação, Monserrat Gomendio afirmou que o nível de capacitação na Espanha melhorou muito, mas tem ocorrido de forma muito lenta. Ele ressaltou a necessidade dos jovens que abandonam a escola obter um diploma de nível médio e coloque a Espanha em níveis melhores nessa área na compração com outras nações. Para isso, ressaltou, serão levadas em conta todas as medidas que estão sendo postas em prática, além de projetos como a reforma da educação.

O relatório da OCDE, no entanto destaca uma dificuldade de conciliar esse objetivo com os cortes que estão sendo feitos no orçamento da educação de mais de 6,7 mil milhões de euros desde 2010. A oferta e cobertura dos programas voltados para o ensino médio poderia ser expandido enormemente. A formação profissional e o ensino secundário oferecem a oportunidade aos jovens de adquirir habilidades, conhecimentos e experiência necessários para funções especializadas, além de preparar os jovens para o ingresso no mercado de trabalho. 

"Na Espanha, há uma oferta fraca e insuficiente de vagas para a formação profissional nas escolas secundárias, não sendo ofertado em metade delas. A reforma educacional também é contrária aos argumentos apresentados neste relatório, uma vez que proporciona um maior investimento na formação profissional", reclama Michael Recio, do Departamento de Estudos da Federação de Ensino.