Ódio racial: árabes são espancados por israelenses    

Nas últimas semanas ocorreram pelo menos oito casos, divulgados pela mídia local, de ataques gratuitos e violentos, por parte de grupos de jovens israelenses contra cidadãos árabes, em ruas, restaurantes e até no mar, em Israel. Os ataques ocorreram de forma espontânea e repentina, em diversos lugares do país, sem qualquer motivo a não ser pelo ódio contra árabes.

Vale notar um fato não menos importante: na grande maioria dos casos, as pessoas que interferiram e denunciaram a violência contra os cidadãos árabes também são judeus israelenses, fato que demonstra claramente as profundas divisões, não apenas politicas mas também morais, nesta sociedade.

Uma das vítimas recentes dessses ataques foi o funcionário de limpeza da prefeitura de Tel Aviv, Hassan Ussruf, 40 anos. Ele estava varrendo a calçada junto à orla da cidade, quando foi atacado por jovens que quase o mataram. O incidente ocorreu no dia 24 de fevereiro, às 4 da manhã, quando Ussruf e seu parceiro de trabalho, Israel Dadon, começavam o turno.

Medo

"Fui buscar água na torneira junto à fonte da rua Allenby e de repente vários jovens começaram a me xingar. Eles eram cerca de 20. Fiquei com medo e pedi que me deixassem em paz ", relatou Ussruf ao Terra. "Um deles quebrou uma garrafa na minha cara, outro me atacou por trás e senti um forte golpe na cabeça, daí desmaiei".

"Se não fosse meu colega Israel, eu teria morrido". O colega, que naquele momento estava a algumas dezenas de metros do local do ataque, estranhou que Ussruf estava demorando e foi ver o que estava acontecendo. Quando chegou viu os jovens espacando o homem, que já estava inconsciente, e começou a gritar. O grupo fugiu do local.

Segundo o testemunho de Israel Dadon, é óbvio que eles estavam tentando linchar Hassan.Ussruf foi levado para o hospital com fraturas no crânio, no maxilar e no nariz. Depois de ficar 10 dias internado e passar por uma cirurgia, voltou para sua casa, na cidade de Yafo, ao sul de Tel Aviv.

Estado de choque 

"Estou em estado de choque até agora, não entendo porque eles fizeram isso comigo, eu só estava trabalhando para trazer sustento para meus tres filhos", disse. "O que importa se uma pessoa é árabe ou judia? Somos todos seres humanos, somos primos, nunca pensei que podia acontecer uma coisa dessas", afirmou.

O incidente causou um escândalo em Israel e foi divulgado pelos principais veículos da mídia local. O prefeito de Tel Aviv, Ron Huldai, telefonou para Ussruf, pediu desculpas em nome da cidade e enviou uma caixa de bombons e um ramo de flores.

A esposa de Ussruf, Nariman, conta que desde o incidente ele não consegue dormir, tem pesadelos e acorda durante a noite gritando. "Ele não é o mesmo, passou por um trauma e tem medo de voltar ao trabalho", disse. "Não vou trabalhar na orla nunca mais, e nunca mais chegarei perto da torneira da fonte da Allenby", disse ele.

Seis dos autores do ataque foram presos.

Fenômeno desprezível

O comandante da polícia de Israel, Yohanan Danino, disse que instruiu as forças policiais a darem prioridade à investigação de agressões racistas. "Trata-se de um fenômeno desprezível e criminoso", afirmou Danino.

Já houve ataques por motivações de ódio étnico, nacional ou religioso no país, porém observa-se uma frequência crescente desse tipo de violência.

Analistas atribuem os ataques ao clima de hostilidade entre judeus e árabes em decorrência do conflito, à educação nacionalista, a qual a maioria das crianças é exposta, e à liderança politica de direita que, em muitos casos, contribui para acirrar o ódio e serve de modelo para os jovens.

No último dia 6, duas professoras, uma judia e uma árabe, foram atacadas por um grupo de adolescentes em Jerusalém. Revital Volkov e Suad Abu Zmira, que lecionam na cidade de Ramat Hasharon, iam prestar condolências à diretora da escola, que havia perdido a mãe e mora em Jerusalém.

Quando se aproximaram da residência da diretora, alguns adolescentes, alunos de um seminário rabínico próximo ao local, notaram que uma delas era árabe, pois usava o véu de acordo com a tradição islâmica. Foi o suficiente para que eles atacassem as professoras. 

Lançaram pedras e quebraram o vidro traseiro do veículo, xingaram e cuspiram. As professoras fugiram para a casa da diretora, que chamou a polícia. Horas depois, quando sairam do local, também encontraram todos os pneus do carro cortados.

Situação perigosa

"Suad é muito minha amiga, me dói muito por ela ter sido tratada dessa maneira", disse Volkov. "O clima de violência racista ao nosso redor aumenta cada vez mais, as autoridades devem tomar medidas enérgicas pois a situação está ficando cada vez mais perigosa", acrescentou.

Um dos atacantes, 16 anos, foi detido. No entanto, por ser menor de idade, o juiz mandou colocá-lo em prisão domiciliar.

Outro caso que teve uma grande repercussão foi a agressão de tres mulheres jovens contra uma mulher palestina em um ponto do bonde em Jerusalem. As jovens, religiosas da linha nacionalista e moradoras de um assentamento na Cisjordânia, agrediram uma mulher palestina que estava esperando pelo bonde.

Outra mulher, judia israelense, Dorit Yurden Dotan, fotografou o incidente com seu telefone celular e foi a principal testemunha. "As três quase lincharam a mulher palestina, bateram nela e arrancaram seu véu", relatou Yurden Dotan. "Fiquei chocada com tanto ódio e violência, o que salvou a situação foi a chegada do bonde, daí as agressoras subiram e foram embora e a palestina ficou sozinha no ponto, completamente atordoada".

Dias depois, uma das atacantes foi presa.

"Filhos de Netanyahu"

Ainda foram registradas agressões a garçons árabes em restaurantes e a um casal árabe que nadava no Mar da Galiléia, no norte do país.

De acordo com o colunista do jornal Haaretz, Gideon Levy, os jovens agressores que atacam árabes só por serem árabes são "filhos de Netanyahu", em referência ao primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, que lidera o governo de direita há mais de quatro anos e, após sua recente reeleição, deverá governar Israel por mais quatro.

"Obviamente eles não são filhos biológicos do premiê, mas são todos alunos de sua visão de mundo e seguidores da politica de seu governo", afirmou. "Esses skinheads israelenses são os frutos amargos do clima nacionalista e racista que se acirrou muito nos últimos anos, os anos de Netanyahu", acrescentou Levy.