Argentina: 1 mês após incêndio em boate, familiares lutavam por 'verdade'

Um mês após o incêndio na boate Cromañón, na Argentina, a tragédia já havia deixado muitas marcas na sociedade portenha, que iam além da dor e do luto das famílias e amigos daqueles que partiram. Em 30 de janeiro de 2005, parentes e amigos dos 191 jovens mortos durante o incêndio participaram de uma missa. A cerimônia, que marcava o primeiro mês da tragédia, foi rezada pelo arcebispo de Buenos Aires, Jorge Bergoglio.

No primeiro mês, nossa principal atividade foi lutar para que os meios dissessem a verdade, e não apenas reproduzissem aquilo que (o então prefeito) Aníbal Ibarra dizia.

Foi realizada também uma passeata desde o local da tragédia até a Assembleia Legislativa e a Casa Rosada, sede do governo do país. O protesto - que fazia parte de uma série de manifestações que ocorriam sempre às quintas-feiras, dia do incêndio - tinha como objetivos cobrar justiça e pedir a destituição do prefeito em exercício Aníbal Ibarra.

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Cristina Bernasconi, mãe de Nico Landoni (22 anos), uma das vítimas de Cromañón, e membro da Associação de Familiares "Que no se repita", disse que, "em 30 de janeiro de 2005, depois de um mês da perda dos nossos filhos, ainda estávamos consternados, partidos em dois". E reitera que, "no primeiro mês, nossa principal atividade foi lutar para que os meios dissessem a verdade, e não apenas reproduzissem aquilo que Aníbal Ibarra dizia".

Ela relata que as passeatas começaram logo no dia 2 ou 3 de janeiro. "Fizemos a primeira passeata até a Praça de Maio, onde estava o presidente em exercício nesse momento, Néstor Kirchner, e os participantes foram brutalmente agredidos pela polícia, foi muito violento o que aconteceu", afirmou. Kirchner não havia se pronunciado oficialmente sobre as mortes até quatro dias depois do episódio.

Aníbal Ibarra, que foi destituído de seu cargo naquele mesmo ano, havia acabado de se apresentar ao Legislativo para dar explicações sobre o ocorrido no dia 30 de dezembro de 2004. Mas, até aquele momento, o prefeito não havia sido oficialmente responsabilizado por nada. Muitas eram as dúvidas que restavam - apesar de o dono da boate, Omar Chabán, estar sob prisão preventiva na época, ainda não se sabia a identidade da pessoa que havia lançado o elemento pirotécnico. A banda que se apresentou naquele noite, Callejeros, também não havia sido indiciada até aquela data.

A consequência mais concreta do incêndio era o efetivo fechamento das casas noturnas de Buenos Aires, o que criou um clima de incerteza por parte dos músicos e empresários da noite, que já não sabiam quando a situação seria normalizada. A tragédia gerou também uma espécie de medo coletivo por parte de pais e filhos com relação à segurança dos lugares de diversão noturna para a juventude argentina. Sobre essa nova situação, o Secretário de Cultura da ocasião, Gustavo Lopez, declarou ao diário Clarín: "existe um antes e um depois da tragédia, uma sensibilidade à flor da pele. As pessoas vão ao teatro e prestam atenção se o local tem extintor de incêndio. Por isso, devemos buscar um equilíbrio entre normalizar as atividades e garantir a segurança".

As incertezas eram muitas, e as reivindicações também: o grupo chamado "El Servicio Paz y Justicia" (Serpaj) havia apresentado naquela data uma proposta de mudança de leis de fiscalização ao Legislativo. Nela, a associação pleiteava 20 pontos de reestruturação nos mecanismos de contratação de fiscais e tutela desses profissionais.

No tocante às famílias das vítimas, além da dor do luto, muitas delas compartilhavam a preocupação com o sustento da casa. Muitos reclamavam por empregos, ou mesmo subsídios do governo. Boa parte dos jovens que morreram naquele 30 de dezembro sustentam parcial ou totalmente suas famílias. Logo após as mortes, muitos parentes ficaram em situação de calamidade.

Em relação ao local do incêndio, a sede da República Cromagñón, muito se cogitou - falou-se em transformá-lo em um museu, ideia defendida pelo legislador portenho Milcíades Peña, ou em convertê-lo em sede para as associações de familiares de vítimas. Nada disso foi feito, e o prédio - localizado entre as ruas Bartolomé Mitre e Ecuador, no bairro bonairense de Once - segue fechado. O local conserva até hoje o aspecto de santuário improvisado construído na época, com fotos dos jovens, flores, cartazes pedindo por justiça e os emblemáticos calçados amarrados em grupo, suspensos no ar por um fio, símbolos da pouca idade das quase 200 vidas perdidas na tragédia.

Incêndio na Boate Kiss

Na madrugada do dia 27 de janeiro, um incêndio deixou mais de 230 mortos em Santa Maria (RS). O fogo na Boate Kiss começou por volta das 2h30, quando um integrante da banda que fazia show na festa universitária lançou um artefato pirotécnico, que atingiu a espuma altamente inflamável do teto da boate.

?Com apenas uma porta de entrada e saída disponível, os jovens tiveram dificuldade para deixar o local. Muitos foram pisoteados. A maioria dos mortos foi asfixiada pela fumaça tóxica, contendo cianeto, liberada pela queima da espuma.

Os mortos foram velados no Centro Desportivo Municipal, e a prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde prestou solidariedade aos parentes dos mortos.

Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas.

Quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investiga documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergem sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.

A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.

No dia 25 de fevereiro, foi criada a Associação dos Pais e Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss em Santa Maria. A intenção é oferecer amparo psicológico a todas as famílias, lutar por ações de fiscalização e mudança de leis, acompanhar o inquérito policial e não deixar a tragédia cair no esquecimento.