"O chavismo veio para ficar", diz analista venezuelano

Antes de viajar à Cuba para uma nova cirurgia, há mais de um mês, Chávez disse que Maduro era o seu sucessor político. E o que Chávez diz é lei na Venezuela. Autorizado pelo legislativo e pela Justiça, o vice-presidente está no poder e promete levar a revolução bolivariana adiante enquanto espera a volta do líder. Mas e se "El Comandante" não voltar? Haverá duras disputas internas, mas o chavismo veio para ficar.

Esta é a opinião de Luis Vicente León, presidente da Datanálisis, maior empresa de pesquisa de opinião e mercado da Venezuela, que teve intensa participação no pleito que deu vitória a Chávez, no último mês de outubro. Apesar da forte ligação com a imagem e com carisma de Chávez, diz ele, o chavismo terá continuidade com seus correligionários surfando na popularidade do líder. Ao menos a um curto prazo.

Os problemas, segundo León, podem surgir a longo prazo, quando as diferentes correntes chavistas iniciariam uma disputa interna e "perigosa" para o país. "Essas direções sempre são perigosas: militarismo contra civilismo, radicalismo contra moderação, pragmatismo econômico contra marxismo", analisa.

Confira os principais trechos da entrevista concedida por telefone ao Terra.

Terra - Sem Chávez, como ficaria o chavismo na Venezuela?

Luis Vicente León - No momento, acredito que o chavismo vai se unificar em torno de uma rota eleitoral. Então, eu acho que, em um curto prazo, os riscos para o chavismo não são tão altos, porque eles vão estar unidos ao redor de um mecanismo que garanta a vitória e a manutenção do poder da revolução, e isso só pode ocorrer ao redor de Maduro, o eleito e designado pelo presidente. A indefinição a respeito da saúde de Chávez já faz com que os apoiadores trabalhem para que Maduro possa se garantir (no poder) no caso de uma eleição.

Terra  - O senhor acha que os aliados políticos de Chávez conseguiriam manter o chavismo vivo na Venezuela?

Luis Vicente León - Maduro deve se manter em sintonia com Chávez em tudo. Parece um absurdo dizer que isso não é possível (manter o chavismo vivo). Existem correntes que dizem que não vai existir chavismo sem Chávez, assim como não há limonada sem limão, mas esquecem do marxismo e do peronismo. Se será diferente. Se menor ou maior, não sabemos. Mas uma coisa é óbvia: o chavismo veio para ficar.

Terra - Sem Chávez, qual é a chance de ocorrer conflitos pelo poder entre chavistas?

Luis Vicente León - O chavismo tem direções internas. Agora, temos o Diosdado Cabello (presidente da Assembleia Nacional) e o Maduro. Ou seja, é necessário que se apresentem juntos, e é normal que o façam. São tendências que buscam a manutenção da revolução, mas que pensam diferente, e devem levar esse conflito ao poder. Essas direções sempre são perigosas: militarismo contra civilismo, radicalismo contra moderação, pragmatismo econômico contra marxismo. Esses são elementos que devem aflorar no futuro, e isso será um risco para a revolução, para o chavismo, e para o nosso futuro.

Terra  - Chávez é considerado uma das maiores baluartes da esquerda na América Latina. Existem nomes nos países vizinhos que possam ocupar o espaço deixado por ele?

Luis Vicente León - Em relação às outras lideranças de esquerda na América Latina, Chávez se destaca pela sua personalidade irreverente, explosiva e carismática. Isso é Chávez. Isso, Maduro e (presidente do Equador Rafael) Correa não têm. Eles são diferentes, não quer dizer que são melhores ou piores. Seria mais provável que (Raúl) Castro assumisse esse papel. Muito mais que para Rafael Correa, Cristina Kirchner ou até mesmo para Evo Morales.