Capriles critica "paralisia" política da Venezuela

Horas depois de o Supremo Tribunal de Justiça (STJ) autorizar o adiamento da posse de Hugo Chávez, o principal nome da oposição e candidato derrotado no último pleito presidencial, Henrique Capriles, adotou um tom conciliador para pedir respeito à decisão do judiciário e, ao mesmo tempo, criticar a paralisia política promovida por alguns setores do chavismo.

“O Tribunal pode tomar a decisão (que tomou), a decisão é vinculante”, afirmou Capriles, pedindo respeito à voz final da mais alta instância do judiciário venezuelano sobre a interpretação da Constituição que decidiu pelo adiamento da posse de Chávez. “Nós não estamos buscando o confronto, tampouco colocar os venezuelanos a brigarem um com os outros. (...) Não vamos convocar o povo, e isso não é sinal de debilidade, mas de responsabilidade”.

Foi o primeiro pronunciamento público do expoente oposicionista depois da confirmação de que o presidente reeleito não precisará tomar posse nesta quinta-feira, tal como indicado na Constituição. Nele, ao contrário do tom belicoso adotado por alguns importantes líderes governistas contra a oposição, Capriles visivelmente adotou uma moderação, sem no entanto deixar de tecer críticas a alguns setores do chavismo.

“Nós, venezuelanos, estamos cansados de escutar ameaças de pessoas que têm responsabilidade no governo. (...) As intervenções de alguns deputados oficialistas são vergonhosas e carregadas de negativismo”, disse. “Esses pseudodirigentes oficialistas não são donos do país nem da soberania”.

Em meio ao duelo interpretativo sobre a Constituição, representantes do chavismo atacaram diretamente a “direita” venezuelana, acusando-a de “conspiração”. O chefe de campanha chavista, Jorge Rodríguez, denunciou “uma conspiração, uma conspiração sempre baseada no mesmo” e promovida por "uma direita venezuelana que quer derrubar o presidente Chávez, (...) a direita mais asquerosa da Venezuela”.

“Há um governo completamente paralisado”, afirmou Capriles, em referência ao que considera uma Caracas voltada unicamente para atacar a oposição e sem propostas de governo. “Nesta quinta é 10 de janeiro, acabaram as desculpas, senhor (vice-presidente, Nicolás) Maduro, lhe cabe assumir a sua responsabilidade”.

Capriles já havia acenado positivamente para o adiamento da posse antes mesmo da decisão do STJ, que foi, na sua opinião, “uma resposta para resolver um problema que tem o governo”. “Seguimos esperando a recuperação do Presidente, para que assuma sua responsabilidade”, completou o principal líder opositor e governador reeleito do Estado de Miranda.

"Não estou aqui para interpretar se vocês gostam ou não da decisão (do STJ). Do contrário, poderíamos apenas ficar dando nossas opiniões. O que temos que exigir que o governo faça agora? Governe. É perguntar quais são os produtos disponíveis no mercado hoje, quanto os produtos subiram no mês de dezembro", afirmou Capriles.

Paralelamente, Capriles pediu que "a maioria dos presidentes" latino-americanos não assistam à marcha convocada pelo governista PSUV nesta quinta-feira, em Caracas, em apoio ao presidente, qualificada por ele como de "ato de conteúdo político". Esta quarta-feira começaram a chegar os primeiros chefes de Estado da região convocados para o ato, entre eles o presidente do Uruguai, José Mujica. Outros, como os presidentes da Bolívia, Evo Morales, e da Nicarágua, Daniel Ortega, confirmaram sua presença.

Um mês em Cuba

Nesta quinta completa um mês desde que Chávez partiu para Havana para se submeter à quarta cirurgia para tratar um câncer, e desde então os venezuelanos não veem imagens dele, nem ouvido suas palavras, embora durante 14 anos corridos tenha sido presença quase diária nas telas de seus televisores. 

Antes de viajar, Chávez delegou poderes ilimitados a Maduro, dizendo que se ficasse impossibilitado de governar, seu herdeiro político assumiria a Presidência interinamente até o fim do mandato, em 10 de janeiro, e que seria, ainda, o candidato do governista Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) nas eleições presidenciais que deveriam ser celebradas em 30 dias.