EUA: anúncios esquecem propostas e viram batalhas de críticas

Após um início de corrida presidencial em que a mídia americana acreditava em uma disputa entre o atual mandatário, Barack Obama, e seu adversário republicano, Mitt Romney, travada no campo das 'Big Ideas' (as grandes ideais, na tradução do inglês), recentes anúncios televisivos mostram que este não foi o caminho escolhido por ambos os lados. Em vez de propostas, o que se está vendo são múltiplos ataques, repetidas vezes marcados por erros factuais, e a opção pela chamada publicidade negativa.

"Eu não acho que seja algo novo. Em todas as corridas presidenciais e em todas as temporadas eleitorais, as pessoas veem os anúncios como negativos e cada vez fica pior", disse ao Terra Amy Kauffman, consultora para o centro de estudos políticos Hudson Institute, instituição sediada em tal lugar em Washington. "No entanto, os anúncios parecem ter o efeito de fazer com que as pessoas prestem mais atenção em um assunto quando ouvem algo negativo sobre ele. É por isso que continuam sendo feitos e ficam cada vez piores".

Para Kauffman, um aspecto positivo dessa campanha, apesar de as críticas estarem substituindo as propostas, é que a maioria dos anúncios tem como foco a economia, um problema real e o assunto que mais preocupa os eleitores no momento. "Alguma vezes, especialmente em eleições para o Congresso, muitos anúncios acabam vertendo para ataques pessoais. Nessa campanha pelo menos eles estão indo ao ponto", diz.

Anúncio culpa Romney por morte

No início de agosto, o Super PAC (Comitê de Ação Política) democrata Priorities lançou um anúncio em que conta a história do metalúrgico Joe Soptic. No vídeo de 1m03s, intitulado "Understands", Soptic aparece dizendo que perdeu o seu emprego e, consequentemente, seu plano de saúde após uma série de demissões em massa promovida pela empresa Bain Capital, de Mitt Romney, que controlava a empresa que o metalúrgico trabalhava. Como consequência da perda de cobertura médica, o vídeo sugere que o trabalhador não teve condições de dar assistência a sua mulher quando ela foi diagnosticada com câncer, já em um estado avançado da doença, e morreu apenas 22 dias após o diagnóstico.

O anúncio não foi patrocinado diretamente pela campanha de Obama - nos EUA, as progandas podem ser financiadas e veiculadas por organizações não relacionadas diretamente com os partidos. Mesmo assim, o atual mandatário recebeu duras críticas da mídia americana. Diversos veículos apontaram que a publicidade trazia inúmeras inverdades e que "passou dos limites" ao responsabilizar Romney pela morte da mulher, ainda mais quando se descobriu que ela faleceu seis anos após o marido ser demitido. A campanha republicana se aproveitou da repercussão negativa do caso e lançou um anúncio de resposta trazendo a pergunta: "A América não merece mais?"

Apesar da repercussão negativa do anúncio, Kauffman não acredita que ele possa trazer grandes prejuízos políticos a Obama. "Se fosse a campanha de qualquer outro candidato, ele sofreria um revés e o anúncio seria debatido por uma semana. Mas como é o presidente, a história morreu em um ou dois dias", diz.

Republicano é acusado de inventar fato

A campanha de Romney, por sua vez, também foi duramente criticada por um anúncio em que crítica a postura de Obama quanto a políticas de bem-estar social com argumentos imprecisos. No anúncio de 30s intitulado de "Right Choice" (Escolha certa), os republicanos afirmam que o então presidente Bill Clinton, um democrata, estabeleceu em 1996 a política de que os americanos precisavam estar empregados ou passando por treinamento para receber benefícios governamentais. A peça então volta-se contra os democratas ao afirmar que, em julho deste ano, Obama anunciou um plano para retirar a exigência do trabalho das políticas de bem-estar, ou seja, que pessoas poderiam receber dinheiro do governo sem nenhuma contrapartida.

Prontamente, a campanha de Obama lançou um anúncio de 30s intitulado "Blatant" (Flagrante), em que afirma que a denúncia de Romney é falsa e também traz artigos de jornais criticando a peça e aspas do próprio Bill Clinton condenando a propaganda. Neste caso, segundo Kauffman, ocorre a questão de que as campanhas, tanto republicana quanto democrata, costumam com frequência utilizar declarações fora de contexto e dar uma "interpretação diferente" a elas.