Lugo recorrerá à Corte Interamericana contra destituição 

Assunção - Após ter todos recursos rejeitados pela Justiça paraguaia, o ex-presidente paraguaio Fernando Lugo, destituído do poder na semana passada, apresentará recurso junto à Corte Interamericana de Diretos Humanos para tentar voltar ao poder. Além disso, percorrerá diversos departamentos (Estados) para apresentar sua defesa e reunir apoiadores. As diretrizes foram definidas, nesta quarta-feira, após reunião do governo paralelo montado por Lugo para a restauração da ordem democrática, ou seja, para que volte ao poder, segundo afirmam seus interlocutores.

"Pretendemos apresentar uma ação junto à Corte interamericana de Diretos Humanos", disse o senador e ex-ministro do Interior, Carlos Felizzola, do Partido País Solidário (PPS), ao explicar que a Justiça Paraguaia rejeitou todos os recursos apresentados.

Outra forma de Lugo voltar ao poder, segundo afirma do senador, seria através do próprio parlamento, que tem o poder de restituí-lo à presidência, apesar dessa possibilidade ser improvável. "É muito difícil, estamos conscientes disso, mas isso não quer dizer que vamos deixar de lutar por uma causa justa", disse o parlamentar alegando que não houve direto à defesa.

Nas reuniões que pretende fazer a partir da semana que vem em diferentes partes do país, Lugo se reunirá com grupos de diversos setores para apresentar sua defesa com o objetivo de arrebanhar apoiadores e incitar as manifestações pacíficas e contrárias à sua destituição.

"Estamos organizando um cronograma para que, na semana que vem, possamos começar com um cronograma na terça-feira. Junto a isso a estamos recebendo comunicados de que muita gente está se mobilizando em diferentes partes do país", explicou Felizzola.

OEA e Mercosul

Sobre as medidas adotadas internacionalmente, Felizzola disse que Lugo vai acatar o que decidiu a OEA, que vai enviar uma comissão ao Paraguai e confirmou que o ex-presidente não participará da Cúpula do Mercosul, apesar de ter sido convidado, por considerar que não teria nada de novo a acrescentar na reunião em sua defesa, já que o Mercosul e a Unasul são os têm mais informações obre o que aconteceu no Paraguai", disse.

"Acreditamos que possam ocorrer algumas sanções durante a reunião, como a suspenção do Paraguai do Mercosul. Não estamos instigando nada, são decisões de cada país. Pelo que pudemos perceber após a reunião da OEA, todos os países concordam que não houve direto de defesa", afirmou.

Felizzola afirmou que a questão eleitoral, com a possibilidade de Lugo concorrer a uma vaga no Senado, está sendo feita paralelamente, junto à Frente Iguazu, que é a coalizão de esquerda que mobiliza a oposição contra o atual governo. "Poderia ser, mas é uma decisão que tem que ser tomada pelo presidente Lugo e pela Frente Iguazu".

Processo relâmpago destitui Lugo da presidência

No dia 15 de junho, um confronto entre policiais e sem-terra em uma área rural de Curaguaty, ligada a opositores, terminou com 17 mortes. O episódio desencadeou uma crise no Paraguai, na qual o presidente Fernando Lugo, acusado pelo ocorrido, foi sendo isolado no xadrez político. Seis dias depois, a Câmara dos Deputados aprovou de modo quase unânime (73 votos a 1) o pedido de impeachment do presidente. No dia 22, pouco mais de 24 horas depois, o Senado julgou o processo e, por 39 votos a 4, destituiu o presidente.

A rapidez do processo, a falta de concretude das acusações e a quase inexistente chance de defesa do acusado provocaram uma onda de críticas entre as lideranças latino-americanas. Lugo, por sua vez, não esboçou resistência e se despediu do poder com um discurso emotivo. Em poucos instantes, Federico Franco, seu vice, foi ovacionado e empossado. Ele discursou a um Congresso lotado, pedindo união ao povo paraguaio - enquanto nas ruas manifestantes entravam em confronto com a polícia -, e compreensão aos vizinhos latinos, que questionam a legitimidade do ocorrido em Assunção.