Liberais anunciam ato pró-Franco e camponeses chegam a Assunção

No mesmo dia em que o Partido Liberal Autêntico Radical (PLRA) anunciou uma manifestação para quarta-feira em favor do presidente Federico Franco, um grupo de aproximadamente 50 camponeses chegou à capital do país nesta segunda-feira. Os agricultores vieram do departamento de Caaguazu, a cerca de 180 km de Assunção, para se unir aos apoiadores de Fernando Lugo, presidente destituído na semana passada pelo Congresso, após processo de impeachment.

Os camponeses se uniram aos manifestantes que, desde sexta-feira, se aglomeram em frente ao prédio da TV Pública do Paraguai, local que se tornou uma espécie de quartel-general dos manifestantes pró-Lugo. Gritando palavras de ordem, em um idioma que mescla espanhol e guarani, os camponeses não têm data para voltar para casa.

Poucas horas antes da chegada dos camponeses a Assunção, no entanto, dirigentes do PLRA realizaram uma reunião convocando a militância para a manifestação de quarta. "Vamos dizer para o mundo que o Paraguai é uma país livre. (...) A resolução da Corte Suprema de Justiça rejeitou a ação de inconstitucionalidade apresentada por Lugo", disse o presidente do partido, o senador Blas Llano, referindo-se ao recurso judicial apresentado pelo ex-presidente, contra sua destituição.

Medo de reação do governo

Segundo o camponês Ubaldo Peralda, 41 anos, eles saíram de sua região cedo pela manhã e estão cautelosos, temendo algum tipo de reação violenta do governo. "Vieram apenas os homens, deixamos as mulheres e crianças em casa, porque temos medo de que esses deputados e senadores possam ordenar alguma reação violenta. Nós não somos violentos, não temos armas, viemos para um protesto pacífico", disse.

Peralda acredita que as acusações que alguns parlamentares fazem contra Fernando Lugo, de que teria favorecido o crescimento do Exército do Povo do Paraguai (EPP) durante seu governo, são caluniosas. O EPP é um grupo acusado de invasão de propriedades privadas e conflitos armados que, segundo crítico de Lugo, teria recebido até treinamento das Farc.

"Não acredito que Lugo tenha beneficiado a EPP. Eles são violentos, mas não são todos os camponeses que compartilham da mesma opinião sobre o uso de violência", afirma. Segundo ele, a maior preocupação dos trabalhadores do campo são os estrangeiros que possuem grandes porções de terra no Paraguai. "Eles não respeitam ninguém, saem fumigando toda a área sem se importar se alguém está lá".

Processo relâmpago destitui Lugo da presidência

No dia 15 de junho, um confronto entre policiais e sem-terra em uma área rural de Curaguaty, ligada a opositores, terminou com 17 mortes. O episódio desencadeou uma crise no Paraguai, na qual o presidente Fernando Lugo, acusado pelo ocorrido, foi sendo isolado no xadrez político. Seis dias depois, a Câmara dos Deputados aprovou de modo quase unânime (73 votos a 1) o pedido de impeachment do presidente. No dia 22, pouco mais de 24 horas depois, o Senado julgou o processo e, por 39 votos a 4, destituiu o presidente.

A rapidez do processo, a falta de concretude das acusações e a quase inexistente chance de defesa do acusado provocaram uma onda de críticas entre as lideranças latino-americanas. Lugo, por sua vez, não esboçou resistência e se despediu do poder com um discurso emotivo. Em poucos instantes, Federico Franco, seu vice, foi ovacionado e empossado. Ele discursou a um Congresso lotado, pedindo união ao povo paraguaio - enquanto nas ruas manifestantes entravam em confronto com a polícia -, e compreensão aos vizinhos latinos, que questionam a legitimidade do ocorrido em Assunção.