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Disputa entre seculares e islamistas marca eleição histórica no Egito

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Quinze meses após a renúncia do presidente Hosni Mubarak, provocada pelo levante popular da Primavera Árabe, os egípcios começaram a ir às urnas nesta quarta-feira para a primeira eleição presidencial direta em toda a milenar história do país. O pleito está sendo marcado pela divisão entre seculares e islamitas, que brigam voto a voto pela preferência dos eleitores e devem precisar de um segundo turno para definir a disputa.

Segundo pesquisas e analistas, nenhum dos quatro primeiros candidatos chegará com uma grande vantagem para decidir a eleição no primeiro turno. O candidato precisa de ao menos 51% dos votos dos cerca de 50 milhões de eleitores para vencer sem necessidade de segundo turno. A eleição se estende até amanhã, dia 24, ao final do dia.

Durante a manhã, filas se formaram nas zonas eleitorais espalhadas pela capital Cairo e outras cidades do país. Ao contrário das eleições parlamentares de novembro do ano passado, quando houve protestos, violência e incidentes entre simpatizantes de diferentes partidos e candidatos, a votação para presidente ocorre sem registros de incidentes.

A junta militar que governa o país desde a saída de Mubarak prometeu que entregaria o poder a um governo civil e que as eleições seriam justas e transparentes.

É a primeira vez na história que os egípcios elegem diretamente seu governante, já que até o último pleito presidencial, em 2005, o líder do país era escolhido de forma indireta, com o nome sendo determinado pelo Parlamento e ratificado por consulta popular. As consultas eram visivelmente manipualdas e fraudadas, segundo observadores internacionais.

Islamistas x seculares

O pleito coloca frente a frente islamistas contra seculares, duas ideologias que dividem os egípcios e mexem com os sentimentos da população sobre o futuro do país.

Treze candidatos concorrem à presidência do país, mas quatro despontam como favoritos para chegar a um segundo turno - Amr Moussa, ex-secretário da Liga Árabe e ex-ministro de Relações Exteriores de Mubarak; Abdel Moneim Aboul Fotouh, candidato independente islâmico moderado; Mohamed Mursi, candidato da Irmandade Muçulmana e de seu partido Justiça e Liberdade; Ahmed Shafiq, primeiro-ministro durante os últimos dias de Mubarak no poder.

Enquanto que Moussa e Shafiq representam o secularismo, eles são vistos também como remanescentes do regime de Mubarak. Já Mursi e Fotouh representam a ala islamista, embora o último tenha o apoio de liberais e seculares já que é considerado moderado e simpatizante de um governo secular. Segundo analistas políticos do Egito, Amr Moussa e Abdel Moneim Aboul Fotouh seriam os mais cotados a chegar a um provável segundo turno.

Para a eleitora Mona Abdel Tawakol, 27 anos, a eleição está mais organizada do que o pleito parlamentar do ano passado. "Eu notei maior organização e maior controle para que não haja fraudes", disse ela ao Terra. "É muito emocionante ver que a minha geração está tendo a chance de votar para presidente pela primeira vez no história. Espero que a vida melhore, porque os egípcios precisam urgentemente de uma mão forte para liderar", salientou ela.

Mohamed Nasser, 39 anos, contou que votou cedo e deseja ver os islamistas no poder. "Nós já experimentamos os seculares. Desta vez quero dar uma chance para a Irmandade Muçulmana", revelou. Para ele, o país precisa de um movimento forte como a Irmandade, que tem um canal direto com o povo. "É o povo egípcio, as camadas mais pobres, que precisam do presidente, não as elites", falou.

Outro eleitor, Maged Husseini, 46 anos, disse que ele não se importava com quem ganhasse. "Nos livramos de Mubarak e seu regime. Agora só quero um presidente e o resto depois se ajeita", enfatizou.

O país vive dias de muita expetativa e ansiedade sobre as consequências de um resultado que enfureça o lado perdedor. Uma vitória de Moussa ou Shafiq poderia ser vista como a volta do antigo regime por jovens ativistas que protestaram nas ruas no ano passado para derrubar Mubarak. Já uma vitória de islamistas poderia aborrecer a elite e militares que se sentiriam incomodados em obdecer a um governo islâmico.

Analistas prevêem protestos nas ruas do lado perdedor que poderiam paralisar o país e até enveredar para a violência. Alguns políticos críticos da junta militar alertam para a possibilidade de um golpe miltiar se as Forças Armadas sentirem que seu poder será ameaçado.