Indecisos e extrema direita definem eleição na França neste domingo

Os 46 milhões de eleitores cadastrados para votar nas eleições presidenciais francesas já decidem o futuro do país nas urnas desde as 8h (3h em Brasília) deste domingo. Se o socialista François Hollande é o favorito a vencer o pleito - e isso desde que entrou em campanha, em outubro -, o voto dos indecisos e da extrema direita são a única chance de o atual presidente de direita, Nicolas Sarkozy, conseguir reverter a perspectiva de derrota.

Mais isolado do que nunca, inclusive no próprio partido, o União por um Movimento Democrático (UMP), Sarkozy não obteve o apoio formal de nenhum dos outros candidatos derrotados no primeiro turno, ao contrário de seu opositor. Imediatamente após a divulgação dos resultados da primeira etapa das eleições, Sarkozy concentrou as energias para captar o eleitorado da extrema direita, que saiu fortalecida em 22 de abril com 17,9% dos votos. Mas a virada à direita não foi suficiente: a presidente do partido Frente Nacional, Marine Le Pen, anunciou que votará branco neste domingo.

Ainda assim, os institutos de pesquisa apontam que entre 55 e 60% dos 6,4 milhões de eleitores do partido extremista devem escolher o atual presidente na votação de hoje, estimulados pelas promessas de campanha dele nos temas importantes para a extrema direita, a imigração e a segurança, durante os 15 dias que separaram os dois turnos. Enquanto isso, somente 15% destes eleitores pretendem votar em Hollande neste domingo - a maioria por querer impedir a reeleição do atual governante a qualquer custo. O restante, entre 25 e 30%, deve se abster ou votar em branco, a exemplo da própria Marine Le Pen.

A virada radical de Sarkozy à esquerda afastou, ao mesmo tempo, outra potencial reserva de votos para a sua reeleição: os centristas, donos de 9,1% das cédulas no primeiro turno. Decepcionado com a sedução aberta do presidente ao eleitorado de extrema direita, o partido MoDem não incentivou a militância para um lado ou outro, porém, o presidente da sigla, François Bayrou, afirmou que vai votar em Hollande por condenar a "obsessão" de Sarkozy pelo fim da imigração na França. "Não quero votar em branco, isso seria indecisão e, nestas circunstâncias, a indecisão é impossível", afirmou Bayrou, na quinta-feira. A postura é histórica no partido de centro, que jamais havia votado na esquerda desde a sua criação, em 1978.

Restam ainda os indecisos. Na sexta-feira, a apenas dois dias da decisão da eleição, ainda havia entre 15 e 20% de eleitores que não sabiam em quem iriam votar. Eles alimentam os últimos suspiros da campanha de Sarkozy: até sexta-feira, última oportunidade de a imprensa francesa dar a palavra aos candidatos, o presidente ainda acreditava em uma "surpresa". Inspirado pelas pesquisas finais de intenções de voto, que apontam a aproximação entre o presidente e o socialista na reta final da campanha, o conservador clamou por "uma mobilização excepcional de última hora" para virar a eleição. A derrota poderá marcar uma página na carreira política do governante: ele se tornaria o primeiro presidente francês a não conseguir se reeleger em mais de 30 anos.

Os institutos asseguram que, no dia da eleição, a porcentagem de eleitores em dúvida cai para 5%. Porém, o mais importante é que a multidão de indecisos é, na realidade, formada por pessoas que não pretendem ir votar - pessoas com pouca intimidade com a política ou que não se sentem estimuladas a votar se a sua escolha do primeiro turno não está mais na corrida presidencial. "São eleitores que sabem que acabarão não indo votar, mas têm vergonha de admitir. Não por coincidência, este número de até 20% se aproxima da taxa de abstenção no primeiro turno", explica o diretor do departamento de Opinião do instituto TNS Sofres, Emmanuel Rivière.

Ao jornal Le Monde, o diretor do Centro de Pesquisas Políticas da Sciences Po, Pascal Perrineau, destacou que a única chance de os indecisos virarem a eleição é em caso de resultado muito apertado entre Hollande e Sarkozy. As pesquisas, entretanto, apontam uma diferença de entre 5 e 7% dos votos entre os dois, o que seria uma vitória confortável para o socialista. "Os indecisos tiveram um papel importante em 1974, quando Valéry Giscard d'Estaing se elegeu com apenas 500 mil votos de vantagem", lembrou Perrineau.

No primeiro turno, com outros oito candidatos concorrendo, foi exatamente esta a diferença entre Hollande e Sarkozy, o equivalente a 1,6% dos votos. Outro fator que diminui as chances de uma surpresa é que não se verificou um aumento da mobilização entre os dois turnos. Os institutos de pesquisa esperam uma participação semelhante a do primeiro turno, em torno de 80%.

Os primeiros resultados extraoficiais devem começar a ser divulgados na internet a partir das 18h30 (13h30 em Brasília). Sites de fora da França normalmente antecipam os resultados, já que o Código Eleitoral francês proíbe a imprensa do país a publicar qualquer pesquisa de boca de urna antes das 20h (15h em Brasília), quando a votação se encerra.