França: candidato socialista tem vantagem, mas reviravolta ainda é possível

Após receber 27,18% dos votos no primeiro turno das eleições francesas, Nicolas Sarkozy estaria, teoricamente, com a faca e o queijo na mão. Isso porque Marine Le Pen, candidata de extrema-direita, recebeu 17,9%, ficando em terceiro lugar. Com o apoio de Le Pen, o atual presidente teria um eleitorado grande suficiente para garantir sua reeleição. Mas a filha de Jean-Marie não deixou barato e declarou, na última terça-feira, que não dará mandato a ninguém e que votará em branco no segundo turno.

Nas últimas semanas, Sarkozy vinha afinando seu discurso com o da extrema-direita, enrijecendo suas críticas à presença dos imigrantes.  Mas sua tentativa de angariar os votos da Frente Nacional pode ser insuficiente devido à crise econômica sem precedentes que atinge o país, possibilitando a eleição de uma liderança socialista após dezessete anos. Assim como no primeiro turno, o candidato de esquerda, François Hollande, continua em primeiro lugar nas pesquisas, apesar de também não ter recebido apoio de Jean-Luc Mélenchon, candidato de extrema-esquerda.

“Devido a esta conjuntura inédita no cenário europeu, o resultado da eleição não parece muito previsível. Mas esta não seria a primeira vez que um candidato democrata é eleito em meio a uma crise do sistema, como aconteceu nos EUA, em 2008. Me parece que o eleitorado fica um pouco mais temeroso com relação a um líder de direita em um momento em que o social está em risco”, analisa a professora de História da Veiga de Almeida, Verônica Pires.

Apesar da vantagem de Hollande, Sarkozy é o candidato que tem apoio dos grandes líderes europeus. Segundo Ricardo Ismael, professor no departamento de Sociologia da PUC-Rio, o povo francês já tem uma tradição em reeleger os presidentes, além de Sarkozy ser o favorito do mercado financeiro e das lideranças que estão conduzindo o ajuste econômico na Europa. Outra vantagem do candidato da União por um Movimento Popular (UMP) é que seu oponente não tem muita experiência administrativa e nunca teve um cargo no governo.

“Talvez essa visão conservadora de não mexer no governo não prevaleça. Há um sentimento muito grande de rejeição à personalidade do Sarkozy. O Hollande é economista e tem credenciais para assumir a presidência. Ele tem uma preocupação maior com o bem-estar social, deve lutar para suavizar o ajuste e não torná-lo mais duro do que já é”, observa Ismael.

Para o sociólogo Ivo Lesbaupin, não fossem os recentes assassinatos na cidade francesa de Toulouse, Sarkozy estaria ainda mais atrás nas pesquisas de intenção de votos. Ele explica que a população “está extremamente irritada com os direitos que foram perdidos ao longo dos anos”.

“Assim como os demais países europeus, os franceses parecem querer eleger a oposição do partido da situação. Os franceses votarão no governo que possa garantir seus direitos. Eu voto na França e vou votar no Hollande com a esperança que ele mude a política econômica, mas não tenho a mínima certeza de que ele o fará”, diz Lesbaupin, que afirma que mesmo governos socialistas podem se ver obrigados a tomar medidas austeras.