Férias podem causar abstenção de 30% em eleições na França 

Está dada a largada para uma das eleições presidenciais mais importantes da França nas últimas décadas. Com o país na mira da grave crise econômica que afundou a Grécia, Portugal e a Espanha, a França caminha para eleger o primeiro presidente de esquerda depois de 17 anos de direita no poder. Mesmo com as pesquisas apontando favoritismo para o socialista François Hollande, há certa dificuldade em saber quem será o vencedor. Uma das justificativas é a esperada alta taxa de abstenção: em plenas férias escolares, entre 22% e 30% dos franceses não devem votar nesta primeira etapa das eleições.

As autoridades eleitorais divulgaram que a participação até as 12h (7h de Brasília) é inferior ao mesmo período nas eleições de 2007: 28,29% dos eleitores já votaram, contra 31,21% que haviam votado na manhã de 22 de abril de 2007. Os 44,5 milhões de franceses inscritos para participar do primeiro turno das eleições francesas começaram a decidir a sorte do país ontem, nos consulados do país em todo o mundo e nos territórios franceses fora da Europa. Na França, as urnas abriram às 8h (3h em Brasília) e fecharão entre às 18h e as 20h (13h e 15h em Brasília), de acordo com o tamanho da seção eleitoral, grandes cidades, como Paris, Marselha e Lille, encerram a votação às 20h.

Nas ruas, porém, o clima eleitoral é ameno. Não há bandeiras, panfletos e muito menos boca de urna em torno dos locais de votação, resultado de uma rigorosa conduta estabelecida pelo código eleitoral francês. Um passeio pelas ruas da capital demonstra que as eleições estão nas conversas nos cafés, à espera do metrô ou entre uma compra e outra nos tradicionais mercados públicos. Mas quem esperava ver agitação e mobilização, se decepcionaria.

"Este é um momento de reflexão e concentração. Tivemos bastante tempo para ouvir todos os candidatos", afirmou a aposentada Emmanuelle G., enquanto fazia as compras em um mercado no bairro Convention, no 15o distrito de Paris. "Agora, é a vez do nosso encontro com as urnas."

Os candidatos perderam, literalmente, o direito à voz nas mídias desde a meia-noite de sexta-feira, quando se encerrou o prazo oficial da campanha. Consequência: nesta manhã de domingo, as emissoras de televisão mostravam imagens do voto dos candidatos, mas não o áudio. Alguns deles, como o favorito a vencer o pleito, o socialista François Hollande, deu uma coletiva de imprensa ao chegar na sua seção, no departamento de Corrèze - onde fez carreira política -, porém as televisões transmitiram apenas as imagens.

Até na internet, os jornalistas estão proibidos de fazer a apologia a um ou outro candidato. Qualquer resultado de pesquisa de boca de urna, apontando os prováveis resultados da votação, só poderá ser divulgado a partir das 20h (15 em Brasília). O desrespeito à norma pode resultar em uma multa de 75 mil euros (R$ 185,6 mil).

Tanto cerco aumenta também a expectativa sobre quem serão os dois vencedores deste primeiro turno das eleições. Surpresas são sempre possíveis ¿ em 2002, a França descobriu chocada que quem disputaria o segundo turno contra o então presidente, Jacques Chirac, seria o candidato da extrema-direita, Jean-Marie Le Pen. Hoje à noite, o país vai saber se as pesquisas de intenções de voto se confirmam: todas apontam que Hollande será o concorrente do atual chefe de Estado, Nicolas Sarkozy, no segundo turno. Mas a porcentagem de cada um ainda é uma incerteza.

Sarkozy liderava as pesquisas para o primeiro turno desde o início de março, mas o socialista conseguiu reverter a situação nos últimos 10 dias. Nas últimas cinco sondagens, Hollande vencia quatro - entre 27% e 30% dos votos - e Sarkozy conseguia apenas um empate na quinta - seus resultados variavam entre 25% e 27%, conforme os institutos.

Ajuste das contas e volta do crescimento são os principais desafios

Já no segundo turno, o atual presidente jamais conseguiu ultrapassar o oponente. Hollande deve ganhar a eleição com entre 55% e 57% dos votos, contra 43% a 45% para Sarkozy, de acordo com as pesquisas realizadas até sexta-feira. O domingo vai ser tenso para os dois favoritos, afinal jamais na história da França um presidente perdeu no primeiro turno - embora, desde o início da campanha, Hollande tenha insistido que "o natural" seria o presidente em exercício ter a vantagem neste estágio das eleições.

Mais do que uma vontade de ver a esquerda no poder, é a imensa rejeição do presidente que deve trazer o Partido Socialista de volta para o Palácio do Eliseu, a sede da presidência francesa. Na economia - por razões óbvias, o principal assunto desta campanha -, os programas dos dois candidatos têm poucas diferenças: Sarkozy insiste mais na austeridade, enquanto Hollande quer investir as fichas na volta do crescimento. A maior dificuldade para o ex-secretário-geral do PS vai ser encontrar a fórmula para crescer ao mesmo tempo em que aperta o cerco das despesas, fundamental para a França não abrir ainda mais o fosso da dívida recorde do país, que retira 85,5% do PIB francês.

"Não há uma imensa comoção nacional em torno do Hollande, como houve na eleição de François Mitterrand. Mas a rejeição a Sarkozy é tão intensa que as condições acabaram reunidas para que Hollande consiga vencer a eleição", explica o analista Eric Heyer, do Observatório Francês de Conjuntura Econômica. Heyer avalia que, seja qual for o candidato escolhido pelos franceses, o primeiro objetivo do eleito é muito claro: parar imediatamente com a espiral da crise. "Hollande mostrou estar consciente de que, pelo menos neste momento, não poderá abrir os cofres do Estado para ampliar os direitos sociais dos franceses, como se poderia esperar de um governo socialista. Por isso obteve a confiança dos eleitores."

Além dos dois candidatos favoritos, concorrem pelo terceiro lugar a candidata da extrema-direita, Marine Le Pen, e o da extrema esquerda, Jean-Luc Mélenchon. Atrás deles, devem vir o centrista François Bayrou, a ecologista Eva Joly, a comunista Nathalie Artaud, o nacionalista Nicolas Dupont-Aignan, o trotskista Philippe Poutou e o republicano Jacques Cheminade.