Conheça os 4 grupos que brigam pelo poder em Mali

O golpe de Estado aplicado por um grupo de militares descontentes em Mali, no último dia 21 de março, intensificou um antigo conflito de interesses que perduram há mais de 50 anos no país africano. Desde a independência em 1960, quatro grupos lutam pelo poder escorados em objetivos políticos, econômicos, religiosos e até terroristas. Enquanto estes grupos tentam tirar proveito da crise política, a população malinesa teme pela queda da democracia, o aumento da violência e a guerra civil que está surgindo no horizonte.

Conheça os grupos envolvidos na crise em Mali:

Amadou Toumani Touré

O presidente deposto, Amadou Toumani Touré, governava o país há 10 anos. O general assumiu o poder em 2002 quando liderou um golpe de estado contra os militares e instalou a democracia no país. Apesar de sua gestão não agradar aos militares, Touré tinha apoio de uma ampla coalizão de partidos malineses, mesmo não pertencendo a nenhum.

Desde que a Junta Militar tomou o poder - um mês antes do mandatário encerrar seu mandato constitucional -, ele está escondido em um quartel da capital, Bamaco, sob a proteção da guarda presidencial. Revoltados com o golpe, centenas de manifestantes enfrentaram os partidários dos militares em violentos confrontos que deixaram vários feridos e carros carbonizados.

Os principais partidos políticos também demonstraram sua indignação com a queda de Touré. Em 4 de abril, eles rejeitaram a oferta feita pela Junta Militar para uma convenção nacional com o objetivo de discutir a entrega do poder aos civis. Os partidos alegaram que duvidam se as negociações levariam a um governo legítimo. Em coro, um grupo formado por cerca de 50 partidos políticos e organizações civis comunicou que "a realização da convenção é contrária e incompatível com o retorno da ordem constitucional".

Junta Militar

A Junta Militar, que assumiu o controle do governo após um golpe de estado no dia 21 de março, é liderada pelo capitão Amadou Sanogo. Insatisfeitos com a gestão, os militares malineses derrubaram o presidente Amadou Toumani Touré, um mês antes do fim do seu mandato constitucional, por considerar o governo incapaz de solucionar o conflito contra os tuaregues e a ameaça terrorista da Al-Qaeda, ambos no norte do país.

Logo após assumir o controle, a Junta Militar anunciou a adoção de uma nova "ata fundamental", destinada a garantir "o Estado de Direito e a democracia pluralista". A ata fundamental, criada pelo Comitê Nacional de Recuperação da Democracia e Restabelecimento do Estado (CNRDRE), com cerca de 70 artigos, passou a funcionar como a Constituição do Estado no período de transição.

Embora os militares pretendessem dar mais força para o exército reprimir as revoltas rebeldes, o que se viu foi o inverso. A tomada de poder deflagrou um arrastão dos tuaregues, incluindo no antigo posto comercial de Timbuktu (chamada de "Pérola do Deserto", a cidade é o grande centro intelectual do Islã e está inscrita na lista do Patrimônio Mundial da ONU). Além disso, Mali recebeu sanções internacionais da União europeia (UE) e da União Africana (UA) e foi suspenso como membro da Comunidade Econômica de Estados da África Ocidental (Cedeao), sofrendo embargo diplomático (retirada de embaixadores) e econômico (congelamento de ativos da Junta Militar e interrupção do envio de fundos da Cedeao ao país).

Rebeldes tuaregues

Os rebeldes separatistas tuaregues do grupo Movimento Nacional de Libertação de Azawad (MNLA), liderados pelo coronel Mohammed Ag Najim, chefe do Estado-maior, lutam desde 1960 pelo domínio da região norte de Mali. Apoiados por militantes islâmicos que desejam impor a sharia (lei religiosa islâmica), os tuaregues conquistaram na semana passada o seu único objetivo, o norte do país, expulsando as forças governamentais das províncias de Kidal, Gao e Timbuktu, na região de Azawad. Tomando conta do norte, a intenção da etnia é a de formar um país independente.

Os tuaregues formam um grupo étnico que habita a região do Saara na Argélia, Mali, Níger, Líbia, Burkina Faso e Chade. Falam uma das 25 línguas berberes e preferem ser chamados de Imouhar ("os livres"), em vez de Tuareg ("abandonados pelos deuses"). Eles são conhecidos por seus turbantes azuis, que os protegem do sol e da areia no deserto, e desde 1946 lutam pela liberdade.

O MNLA conta com o apoio da força islâmica Ansar Dine (Defensores do Islã), potencialmente mais poderosa militarmente, e que tem como principal objetivo impor a sharia em todo o Mali. No entanto, a relação entre os dois grupos é caracterizada pela tensão. Segundo analistas, divergências entre os líderes poderiam em breve causar uma guerra entre eles.

Desde a independência em 1960, o Mali já registrou quatro rebeliões tuaregues. Desta vez, o fator diferenciador das outras insurreições é que, pela primeira vez, os rebeldes estão mais preparados para enfrentar o exército de Mali. Agora, a força bélica tuaregue conta com lança-mísseis portáteis, foguetes antitanques e combatentes mais bem organizados e treinados que no passado.

Al-Qaeda no Magreb Islâmico

A Al-Qaeda no Magreb Islâmico (Aqmi) está por trás das revoltas tuaregues no norte do Mali. A organização terrorista de origem argelina é formada por sunitas e defensores da jihad (guerra santa) e luta contra os interesses ocidentais em países do norte da África. Considerada uma das mais perigosas do mundo, a Al-Qaeda no Magreb Islâmico teve suas principais ações realizadas entre 2003 e 2005. Entre elas estão o massacre de 43 soldados argelinos em janeiro de 2003, o sequestro de 23 europeus no mesmo ano, e dois atentados em 2005, um na Mauritânia, com 17 mortos, e um em Argel, quando 33 pessoas perderam a vida.

Em Timbuktu, uma das capitais do norte de Mali, a organização terrorista está se mobilizando. De acordo com fontes locais, três dos principais chefes da Al-Qaeda no Magreb Islâmico - Abu Zeid, Mokhtar Belmokhtar e Yahya Abu al-Hammam -, estão ao lado do líder tuaregue do Ansar Dine, Iyad Ag Ghaly, que controla a cidade. Esses três homens "participaram de um encontro entre Iyad Ag Ghaly e os imãs da cidade", segundo uma fonte de segurança. Eles fizeram do antigo campo do exército malinense de Timbuktu a sua base militar. Iyad Ag Ghaly, ex-figura das rebeliões tuaregues dos anos 1990 explicou que não chegou à cidade para a independência, mas para aplicar as leis islâmicas.