'Perdemos a fé no regime de Assad', diz embaixador da Turquia 

A Turquia faz parte de uma lista pequena e seleta de países visitados pela presidente Dilma Rousseff desde que assumiu a presidência, no ano passado. Essa aproximação entre os dois países vem se estreitando desde o governo Luiz Inácio Lula da Silva, quando os dois países encabeçaram a contramão da comunidade internacional defendendo a não aplicação de sanções ao Irã por desenvolver um programa nuclear próprio. A proximidade se reflete até no turismo. Hoje, uma companhia aérea turca mantém voos diários que ligam São Paulo a Istambul.

Para chefiar a estratégica representação diplomática no Brasil, Ancara designou como um diplomata experiente que já atuou em vários foros multilaterais, inclusive a Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), onde foi candidato a chefiar a agência. Em entrevista ao Terra, o embaixador Ersin Erçin fala sobre a visão e o papel da Turquia na Primavera Árabe, sobre a questão do massacre dos armênios no início do século XX e sobre a postulação turca ao posto de membro da União Europeia, entre outros temas.

Quanto à Síria, país que vive um complexo impasse imerso em uma virtual guerra civil, Erçin é enfático: "A Turquia perdeu a fé no regime de (Bashar al-) Assad", no poder desde 2000. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.

Terra - Qual é a visão da Turquia sobre a Primavera Árabe?

Ersin Erçin - O Mundo Árabe, eles aprenderam mais sobre o mundo nesses anos recentes. O mundo mudou rapidamente, então eles foram inspirados pelas mudanças globais. Então, eles começaram a fazer demandas por democracia. Eles desejam a transformação do mundo árabe e do Oriente Médio e do Norte da África para se tornar uma região pacífica. Eles demandam democracia, melhores condições de vida e isso deve ser ouvido com cuidado e respostas positivas aconteceram na Tunísia, no Egito, mas infelizmente na Líbia esse não foi o caso. Mas em geral, as demandas do povo são vistas com bons olhos pela Turquia.

Terra - No início desse movimento da Primavera Árabe, alguns países ocidentais temiam uma onda de fundações de repúblicas islâmicas no mundo árabe. No início do século XX, o fundador da república turca, Mustafa Atatürk instaurou um Estado laico. Isso seria possível no mundo árabe?

Erçin - Nos países árabes, os grupos de oposição mais organizados são os grupos islâmicos, os partidos islâmicos e na maioria dos países onde esses eventos que são chamados, de maneira correta ou errada, de Primavera Árabe. O mundo ocidental ficou preocupado com a possibilidade de substituição do regime atual por grupos islâmicos radicais. O velho pensamento está sendo substituído por novas ideias. Os grupos islâmicos no Oriente Médio estão mudando, estão muito mais moderados, estão mais preparados para integrar o mundo do que antes. Então, este temor não tem mais fundamento.

Terra - Mas a tendência é de que assumam grupos islâmicos moderados ou pode haver laicização dos países, a exemplo da Turquia?

Erçin - Enquanto país de predominância muçulmana, a Turquia dá um bom exemplo para a região. O Islamismo e a democracia podem andar juntos. Nosso país não quer impor um modelo, mas os novos governantes no mundo árabe, incluindo os grupos islâmicos, são inspirados pelo modelo turco. Nós vemos isso de maneira positiva, mas não queremos impor nenhum modelo a nenhum país. As pessoas, ao demandar democracia, eles escolhem seus próprios regimes. É claro que a Turquia quer é um Oriente Médio democrático e estável, respeitando direitos humanos.

O regime islâmico moderado pode ser um passo para a secularização dos governos do Mundo Árabe?

Erçin - É um processo. Ninguém deve esperar que aqueles países mudem radicalmente de um dia para o outro, incluindo Tunísia, Egito, Iêmen, Líbia e, eventualmente, a Síria. As estruturas estatais não estão mudando tão facilmente, isso é uma cultura política. Então, assim que as pessoas levam suas demandas mais a democracia ficará arraigada e Estados seculares ficaram cada vez mais consolidados. A democracia ainda está se aprimorando. Ninguém tem uma democracia perfeita, mas esse regime é um processo no Oriente Médio, no norte da África e ainda a por vir mudanças sérias na Síria para melhor e para uma melhora no sistema político global.

Terra - A Síria encontra-se num impasse: oposição e governo levam o país a uma virtual guerra civil e a comunidade internacional mostra-se, até o momento, inapta a prestar auxílio que leve à pacificação do confronto. Por que a crise síria é tão complexa e ainda mostra-se tão longe de qualquer solução?

Erçin - A crise síria é um pouco diferente das demais. Em primeiro lugar, há 40 anos esse país vem sendo comandado pela família Assad com mão de ferro. Eu servi por três anos na Síria. Uma minoria está comandando uma maioria (os 12% xiitas estão no poder, enquanto a população sunita e cristã ocupa o resto da população) com mão de ferro. É claro que a Síria já foi um país democrático e com essa mentalidade, o regime sírio se preparou bem para um movimento como esse por muito tempo. Nos anos 1980 eventos terríveis aconteceram e mais de 30 mil pessoas foram mortas.

Terra - Do ponto de vista turco, qual a perspectiva de resolução da crise?

Erçin - Agora, o mundo observou quando esses eventos começaram a aplicar medidas de segurança. E então, o governo turco desde o início ficou muito preocupado em resolver a crise na Síria de maneira pacífica. Temos uma longa faixa de fronteira com a Síria, 911 km, e a Turquia e a Síria tem laços históricos e até familiares. Em algumas famílias, parte dos parentes vivem em um país e parte em outro. Então a Síria, para a Turquia, é muito importante. A estabilidade, a prosperidade, a segurança desse país é essencial para o meu país. Mas esses eventos começaram a apresentar cada vez mais baixas, muitas pessoas foram mortas e ainda estão sendo mortas, e cerca de 10 mil pessoas fugiram para a Turquia, há 17 mil vivendo nos campos ao longo da fronteira. Apesar das promessas de reforma, eles não cumpriram a promessa, eles não as implementaram.

Terra - Não há apoio político de Ancara ao regime de Bashar Al-Assad?

Erçin - A Turquia perdeu a fé no regime de Assad. Há dois dias, nosso embaixador foi chamado de volta para casa. Nós ainda temos relações diplomáticas, porque nosso consulado em Alleppo ainda está aberto, mas nós estamos tentando encontrar soluções pacíficas para essa crise, se possível.

Terra - Muitos esforços multilaterais vêm sendo implementados, mas parece não haver solução viável em um horizonte próximo.

Erçin - Duas resoluções do Conselho de Segurança da ONU foram vetadas pela China e pela Rússia. Enquanto as Nações Unidas estão de tornando inoperantes pelos vetos, a Turquia tenta encontrar uma saída para essa crise. A ONU designou Kofi Annan como enviado especial das Nações Unidas e ele também está buscando uma saída. Aparentemente esta crise vai durar muito porque o regime disse que se saírem do país ou se ele (Assad) for destituído do cargo, ele será sucedido por um grupo islâmico sunita, sugerindo uma mensagem de possível sectarismo no mundo. A Turquia não quer ver nenhuma guerra civil, nenhuma guerra sectária e não queremos que um grupo radical tome o governo. Queremos um país seguro e democrático na nossa vizinhança.

Terra - Após período de relutância, a Turquia apoiou a intervenção da Otan contra a Líbia, mas agora mostrou-se contrária a uma ação direta na Síria. Por quê?

Erçin - Em geral, a Turquia se mostra contrária nas negociações de intervenção, como um princípio. Essas intervenções, apesar de algumas vezes indispensáveis, causam efeitos colaterais, provocam muitas baixas de civis. Na nossa vizinhança já tivemos uma experiência muito ruim no Iraque, também a do Afeganistão e na Líbia houve uma intervenção que tirou muitas vidas, por causa da resistência do Kadafi. No caso da Síria, na nossa vizinhança imediata, é claro que uma intervenção poderia causar mortes de civis indesejadas.

Terra - Mas a Turquia participou do episódio líbio.

Erçin - No caso da Líbia, a negociação foi encabeçada por alguns países: a França, os países que compõem a Otan de modo geral. A Turquia participou da operação, por ser um membro da organização. Nestes tipos de operação, nós não defendemos intervenções militares. Naquela época, havia uma resolução do Conselho de Segurança da ONU criando a zona de exclusão aérea no espaço aéreo líbio. Agora, não há nenhuma resolução do Conselho de Segurança, nós não temos nenhuma base, nenhuma decisão baseada na lei internacional, e a Turquia não quer nada sem tais embasamentos legítimos. A ausência deles torna um apoio turco para intervenção impossível.

Terra - No caso Líbio, a Turquia foi voto vencido, então?

Erçin - É claro. Nós queríamos uma resolução do Conselho de Segurança fosse adotada. Mas a resolução foi vetada por dois países e a Assembleia Geral das Nações Unidas votou uma resolução similar. Então, boa parte da comunidade internacional deseja uma solução pacífica. Dessa forma, não aplicamos sanções unilaterais. A ONU, os Estados Unidos, a União Europeia estão aplicando sanções unilaterais. Armas não são mais providas ao país por essa parte do mundo, mas outros países continuam a prover para a Síria. O que queremos encontrar é uma solução política o quanto antes e a mais pacífica possível para o problema em curso.

Terra - Internamente a Turquia enfrenta uma insurgência curda. Apesar de acordos de paz e cessar-fogo, a violência continua. Qual é a solução para esta situação e por que o conflito se arrasta há tanto tempo?

Erçin - Em primeiro lugar, eu devo discordar da palavra que você usou. Não há insurgência curda. Há terrorismo e combates contra a Turquia. Os grupos são basicamente compostos etnicamente por pessoas de origem curda, mas dizer "insurgência curda" é injusto para as pessoas de origem curda. Porque na região, países como a Turquia, Irã, Síria e Iraque, há pessoas de origem curda. Desde muito tempo, de séculos até, viemos juntos de maneira fraternal, tivemos ministros e até primeiros-ministros curdos e não há tal segregação étnica no meu país. Eles também são separatistas e é claro que nenhum país do mundo aceitaria uma separação.

Terra - Ao dizer terroristas o senhor se refere ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK, sigla em turco)?

Erçin - Sim. Desde seu estabelecimento, este grupo terrorista foi reconhecido como tal pelos Estados Unidos e pela União Europeia. Mas há países que provêm ajuda. Alguns países da região, como a Síria, e outros líderes de países europeus. Mudando o nome, eles ainda recebem apoio de muitos países. É claro que isso é parte da política regional. A Turquia é um país em franco crescimento e é claro que a Turquia emergiu como um centro político e econômico de poder e tais pontos são explorados por certos países. Então, o PKK tem sido infelizmente uma ferramenta para esses países para minar o rápido crescimento da força econômica da Turquia.

Terra - Quais países?

Erçin - Eu te falei, a Síria, alguns países da União Europeia. Países que não gostam realmente de uma Turquia emergente, independente e de mente aberta.

Terra - Tais como?

Erçin - Tais como, não. Não é politicamente correto nomeá-los. Eles sabem muito bem quem são.

Terra - Há solução, então, para resolver a questão do PKK?

Erçin - Um país sério não se compromete com o terrorismo. Nunca permitiremos que qualquer grupo terrorista, curdo ou não, divida parte do país. Não podemos aceitar separação. Eles massacraram muitas pessoas. Aqueles assassinos antes de tudo devem largas as armas, parar com o terrorismo, e só então poderemos ouvi-los.

Terra - A França recentemente passou uma lei que torna crime negar o genocídio, gerando controvérsias na Turquia e na sua relação com o massacre dos armênios. Por que a Turquia se nega a usar o termo "genocídio" para descrever este episódio da história em que, pelas estimativas, cerca de 1 milhão de pessoas teriam sido assassinadas?

Erçin - Muito simples, porque não foi genocídio. Aqueles eventos aconteceram durante o Império Otomano. A população armênia durante o domínio Otomano em cooperação com os russos começaram a matar os turcos. Você já ouviu falar de quantos turcos foram massacrados por armênios naquela época? E alguns grupos turcos para se protegerem os mataram. Então foi uma tragédia comum, sob as condições de uma guerra mundial. Pela propaganda, pela repetição, eles tentam convencer a opinião mundial.

Terra - Mas 1 milhão de armênios foram mortos.

Erçin - Para ser classificado como genocídio, há duas condições. Primeiro, genocídio é um termo usado na convenção para genocídio das Nações Unidas de 1948. Ela não cobre o passado. Genocídio não é aplicado ao passado. Em segundo lugar, uma decisão categórica e sistemática de um governo para extermínio de uma raça. Não houve tal decisão. Havia alguns grupos matando uns aos outros. Além disso, não houve uma decisão judicial. Em Ruanda, por exemplo, houve uma decisão da corte para que aquilo tivesse acontecido.

Terra - Mas não foi uma reação desproporcional?

Erçin - Os armênios conseguiram as melhores posições nos Estados Unidos, no Canadá, na Argentina e na França e eles exploraram fortemente essa psicologia de vítima. Claro que alguns eventos trágicos aconteceram. A Armênia é um país muito pobre e enquanto eles mantiverem a propaganda antiturca, a Turquia não vai normalizar sua relação com a Armênia. A diáspora, que é rica, que é próspera, está tentando impedir a normalização da relação entre a Turquia e a Armênia. Não é simples como eles dizem. Por que a Turquia aceitaria pagar o preço por um crime que os armênios propagam após tantos anos que teriam sido cometidos por turcos? Eles não abrem os arquivos. Se você está me acusando que sou culpado, que sou um assassino, então prove. Vamos provar juntos. Por que a verdade não pode mais ser pesquisada, não pode mais ser interrogada? Não pode ser investigada? Por quê? Se você não tem o que esconder, vamos abrir os arquivos. Nossos arquivos estão abertos em Istambul.

Terra - Desde os tempos de Atatürk e, mais concretamente, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a Turquia aproxima-se da Europa. Isso se reflete na candidatura ao posto de membro da União Europeia. Qual é a situação dessa reivindicação? É um projeto importante para o governo do premiê Erdogan?

Erçin - A Turquia vem sendo descriminada em todas os critérios aplicados a outros países-candidatos. A Turquia tem qualificações que a distinguem em comparação com outros candidatos. A Turquia é um país com grande população muçulmana, foi o único país-candidato de população muçulmana. A Turquia teria uma posição como países como a Alemanha e os outros países centrais da União Europeia. Essas diferenças políticas e religiosas têm sido um problema, além de um profundo sentimento de migração. Mas hoje, nas atuais circunstâncias, tantos europeus vêm à Turquia em busca de emprego, pessoas muito qualificadas: médicos, pilotos, farmacêuticos. Isso porque somos uma economia emergente. Durante a crise tivemos crescimento do PIB de 8,3% e os países europeus estão quebrando com essa crise.

Terra - Se a Turquia está tão bem economicamente, por que ainda que fazer parte do bloco econômico mais atingido pela crise?

Erçin - Ideologicamente e estrategicamente, é importante. O processo é muito importante, porque durante esse processo a Turquia fez tantas reformas. Não estamos satisfeitos com a situação atual, o país pode ser ainda mais democrático, que respeite ainda mais os direitos humanos, que melhore instituições. Apesar de todo o racismo e xenofobia na Europa - que aumentou com a crise financeira - a hostilidade vem aumentando. Apesar de todos esses fatores, o governo turco atribui importância à associação ao bloco e vai continuar nesse caminho. Então, isso é uma meta estratégica para nós. Isso é parte do processo de ocidentalização, é bom para a Turquia manter essa trajetória. É como uma bússola que te mostra o destino.