Atentados na França influenciam as eleições e atentam para movimento xenófobo

No dia 11 de setembro de 2001, quando dois aviões se chocaram contra as Torres Gêmeas como parte de uma série de atentados suicidas comandados pela rede terrorista islâmica Al-Qaeda, o presidente norte-americano George W. Bush estava no início de seu primeiro mandato como presidente da República. Dali em diante, foi proclamada a chamada “guerra ao terror”, ocasionando a invasão dos Estados Unidos em países como o Afeganistão e o Iraque. Foi a forma de Bush capitalizar a tragédia a seu favor, e funcionou, já que foi reeleito quatro anos depois com o mesmo discurso.

Quando um atentado terrorista acontece perto do período de eleições, ele pode ser usado contra ou a favor do governo, dependendo de como este reage. Na França, por exemplo, analistas acreditam que os recentes assassinatos cometidos por Mohamed Merah possam favorecer o candidato Nicolas Sarkozy em sua campanha pela reeleição. Isso porque seu discurso de endurecer as medidas antiterroristas e anti-imigrantes está mais em voga do que nunca.  

O professor Adriano de Freixo, do departamento de Ciências Políticas da Universidade Federal Fluminense, concorda que os atentados podem favorecer a campanha de Sarkozy, mas não sabe se é suficiente para mudar o rumo das eleições, já que a briga com o candidato socialista, François Hollande, está bem acirrada. Duas pesquisas divulgadas na última quarta-feira (28), porém, confirmam o avanço da campanha conservadora: Sarkozy, até então atrás nas intenções de voto, tomou a frente e aparece com um ponto percentual a mais que Hollande.

“Este discurso anti-imigração e do endurecimento das medidas antiterroristas é o discurso tradicional da direita. Vai depender de como os socialistas vão se posicionar. É preciso encontrar o tom certo. Se tiverem discurso soft demais podem sofrer as acusações de estarem sendo pouco duros. Momentos como esse sempre favorecem a direita, com discurso mais forte contra o terror. Já vimos isso nos EUA e na Espanha”, analisa o cientista político.

Freixo explica que este discurso anti-imigração é antigo na França e que, hoje, boa parte do eleitorado da extrema direita está em lugares que historicamente eram redutos eleitorais do partido comunista, ou seja, um eleitorado mais pobre, que vê no imigrante um concorrente para o mercado de trabalho.

“É um discurso simples, fácil de entender, embora as coisas não sejam tão simples assim. O imigrante é visto como responsável por praticamente todos os males da sociedade, tira o emprego, ameaça o sistema de previdência social, trafica haxixe. Eles são o bode espiatório do operariado francês”, avalia.

Apesar de a crise econômica ter minado empregos em diversos países europeus, o movimento xenófobo não é generalizado. Em alguns países, como a Itália, não recai sobre os imigrantes a culpa da falta de emprego, pois, segundo observa um membro do governo, eles se propõem a fazer trabalhos que os próprios italianos não estão dispostos a fazer.

“Pelo que eu observo, este movimento xenófobo não existe na Itália. Até porque não recebemos muitos imigrantes como outros países europeus, como o Reino Unido. De uns tempos para cá há uma presença maior de imigrantes marroquinos e de outros países africanos que trabalham em restaurantes, na limpeza, fazem trabalhos que os italianos não se dispõem a fazer”, diz ele, que pede para não ser identificado.

Atentado

De acordo com o ministro-conselheiro da Embaixada do Brasil em Paris, Achilles Zaluar, a imprensa francesa também tem questionado a influência dos acidentes no resultado das eleições. Os veículos avaliam que os dois principais candidatos tiveram um bom desempenho na reação aos acontecimentos.

“A imprensa considerou positiva a reação do Sarkozy, pois ele se reuniu com representantes das comunidades judaicas e muçulmanas. Sua atitude foi considerada digna. A maioria dos veículos acha que esse tipo de acontecimento favorece o presidente. Não sei se ajudou a campanha, mas certamente não prejudicou”, diz.

O extremista Mohamed Merah, que se disse membro da Al-Qaeda, é de origem Argélia e matou sete pessoas de religiões diferentes em Toulouse e Montauban, sul da França. O ataque mais marcante deixou quatro crianças mortas na porta de uma escola judaica. Segundo ele, estava “vingando” as mortes de crianças palestinas. Merah estava há meses sob vigilância e já constava na lista de pessoas proibidas de voar para os Estados Unidos por conta de suas viagens suspeitas ao Paquistão. Apesar do choque, Zaluar observa que a sociedade francesa não está na expectativa de outros atentados.

“Houve um choque, um impacto emocional muito grande, sobretudo pelo terceiro ter sido cometido contra crianças. Mas há uma percepção de que foi um caso isolado, não percebo que seja um clima de medo generalizado, como no 11 de setembro. Houve um movimento de união nacionalista”, observa ele, que defende que, apesar de Merah ser conhecido do governo como simpatizante islâmico, não havia cometido nenhum ato criminoso e, por isso, não poderia ter sido preso antes apenas por ter uma opinião.