Espanha: invasão de casas vira opção para despejados pela crise

A cada dia, mais e mais famílias espanholas perdem suas casas por falta de pagamento. Com isso, mais residências estão vazias - cerca de 160 mil famílias perderam seus imóveis e 700 mil construções estão embargadas por falta de pagamento. Mas para onde ir quando o banco toma o lugar que você escolheu para viver? Alguns espanhóis se hospedam com parentes; outros, muitas vezes estrangeiros, vão morar com vizinhos, e poucos ficam na rua. Com tantos lares vazios, a solução para cada vez mais pessoas é invadir uma casa e ali ficar até que sejam expulsas.

José Coy é espanhol e, antes de se tornar porta-voz na PAH (Plataforma de Afetados pela Hipoteca) de Murcia, era um pequeno empresário da indústria têxtil. Com a crise e a expansão do mercado chinês, ele perdeu o negócio. Sua casa seria leiloada, mas após uma greve de fome ele conseguiu interromper o processo. "Se eu perder meu lar, não teria dúvidas sobre invadir e ocupar uma casa vazia. Aliás, cada vez mais pessoas ocupam imóveis de outros, até mesmo aquele que era seu antes de você ser despejado. É um fenômeno silencioso que não podemos quantificar, mas sabemos que cresce muito", afirmou Coy.

Segundo a PAH, em 2012 houve um aumento de 35% no total de famílias que perdem sua casa diariamente em toda a Espanha. Isso porque o banco pode ficar com a propriedade de uma pessoa que deixa de pagar o imóvel por três meses. Porém, pelas leis espanholas e pela demora de toda a burocracia, os sem-teto podem ficar de um a dois anos em um imóvel ocupado.

Azucena Paredes teve seu primeiro filho há quatro anos. Depois disso vieram mais dois bebês, mas nenhum trabalho. Hoje, ela cria as crianças sozinha e há três meses mora em uma casa que invadiu. "É muito triste que outras pessoas te expulsem daquele lugar que sempre foi seu e te deixem com os filhos e suas coisas no meio da rua. Não estou aqui porque quero, mas essa situação vai me dar um respiro para eu conseguir emprego e ir para um novo lar", disse Azucena.

Chema Ruiz também está desempregado e se revolta por ter perdido o imóvel. "Tive a sorte de vir com a minha mulher morar com a minha irmã. A família está sendo o grande apoio nestas duras épocas. Mas isto não pode continuar", afirmou ele.

Para os afetados, se nada mudar na legislação atual, a situação será cada vez pior. "Estive em mais de 20 tentativas de desalojamentos em Madri. A polícia chega para expulsar a família, mas os vizinhos e outros que já perderam suas casas são movidos pela solidariedade e pela certeza sobre os seus direitos. Já vi velhos, jovens e até uma freira ajudarem a impedir que a ordem de despejo seja executada", disse Chema, que é porta-voz da PAH de Madri.

Resultados

A PAH tem conseguido resultados - em toda a Espanha, foram cerca de 170 despejos paralisados. Só em Madri, 31 ordens de despejo não foram concluídas, e em 20 casos o banco entrou em acordo com o proprietário devedor.

Tatyana Roeva é búlgara e conseguiu nesta semana um acordo para ficar mais dois meses no local onde vive com o marido libanês e o filho, nascido na Espanha. "Depois disso, terei que sair, entregar a minha casa sem ter condições de ir para outro lugar, já que meu marido e eu estamos desempregados há três anos", disse ela. Quando perguntada se invadiria um imóvel, Tatyana demonstra medo da ilegalidade: "não tenho parentes aqui, não conheço muita gente. Iria para uma casa ocupada, mas não para viver sem lutar pelo direito de ter a minha".

Apesar dos processos paralisados e acordos feitos pela PAH, para as pessoas atingidas isso ainda não é suficiente. "Alguns conseguem acordos com o banco e outros infelizmente perdem seus lares, mas são de 40 a 60 tentativas de tirar um cidadão de sua casa por dia só na província de Madri. Isso é um absurdo. Não temos culpa de estar sem emprego, não somos irresponsáveis. Nosso objetivo é congelar as ações dos bancos para que ninguém mais sofra", afirmou Chema Ruiz.