Putin pode liberalizar sistema político apesar do temor da oposição 

A possível eleição presidencial do ex-presidente e atual primeiro-ministro russo Vladimir Putin pode propiciar a liberalização do sistema político, mas também pode levar o poder a acentuar sua política repressiva, segundo especialistas e opositores.

"Por enquanto, vejo o futuro com muita preocupação", escreveu recentemente no jornal Novaia Gazeta o dirigente opositor Vladimir Rijkov.

Em um ato político que reuniu milhares de partidários do primeiro-ministro Putin descreveu a situação atual como uma "batalha pela Rússia" e acusou quem não o apoia de "trair a pátria".

Para Rijkov, Putin pode optar pela repressão se houver novamente grandes manifestações opositoras depois das eleições do dia 4 de março.

Contudo, "vale considerar outra hipótese". Assim, o poder pode optar por reformar o sistema eleitoral, baixando o mínimo de 7% para permitir a entrada de um partido na câmara baixa do Parlamento ou restabelecendo as eleições para governadores, assim como prometeu o atual presidente Dimitri Medvedev, durante as massivas manifestações opositoras de dezembro passado.

"Se não houver negociações (com a oposição), a situação nos fará pensar na de Belgrado durante os dois últimos anos de Milosevic", acrescentou Rijkov, referindo-se ao presidente sérvio Slobodan Milosevic, que enfrentou durante meses manifestações de opositores convencidos de que tinha havido fraude nas eleições.

Para Elena Pozniakova, do Centro de Tecnologias Políticas, "as paixões vão se atenuar depois das eleições. O descontentamento vai se manter em um estado latente", opinou.

Putin continua tendo "um amplo apoio da população" e, apesar de sua popularidade ter diminuído, "a maioria continua o apoiando", considerou.

Pozniakova afirmou que o regime não está em condições de se tornar mais repressivo e previu uma "liberalização progressiva" do sistema político.

Para Nikolai Petrov, do Centro Carnegie de Moscou, o descontentamento que vem manifestando desde dezembro parte da população levará o regime a mudar.

As eleições legislativas de dezembro, depois das quais representantes opositores denunciaram fraudes, "não causaram protesto, mas sim o desencadearam. A verdadeira razão foi o descontentamento acumulado, que não vai acabar com as eleições", considerou.

Para Petrov, as repercussões a médio prazo da crise financeira europeia, se somarão "reformas impopulares", como a do sistema de aposentadorias, o qual poderia acentuar o descontentamento.

Além disso, ao não ter permitido que existisse uma verdadeira oposição política, "não há como canalizar o protesto para evitar que leve ao caos", destacou.

"Quando há partidos fortes, o protesto provoca uma mudança de governo, uma mudança de política e a vida continua", considerou.

Nesse contexto, "a elite política está começando a se dar conta de que precisa distribuir o poder de Putin (...) entre clãs para se manter no poder", afirmou.

"Putin já não é um czar. Não vai deixar o poder, mas também não será o árbitro supremo", afirmou.