Pressão e reeleição podem ter levado Correa a perdoar jornal

A pressão internacional e o interesse pela reeleição podem ter levado o presidente Rafael Correa a pedir a anulação da condenação contra o El Universo, que poderia ter significado a quebra de um dos jornais mais importantes do Equador, afirmaram analistas.

Onze meses depois de apresentar a ação, Correa, que atribui à "grande imprensa" o papel de oposição, pediu nesta segunda-feira para derrogar a condenação a três anos de prisão e ao pagamento de 40 milhões de dólares contra três diretores e um ex-editor de opinião do maior jornal do país.

Também desistiu de um julgamento - igualmente privado - por danos morais contra dois jornalistas sentenciados ao pagamento de 2 milhões de dólares, devido a um livro que revelou contratos de um de seus irmãos com o Estado.

"A pressão internacional atingiu níveis que o presidente não previa, o caso chegou à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, afetando sua imagem e a do país", disse à AFP Hernán Reyes, analista da Universidade Andina Simón Bolívar.

Correa levantou pela primeira vez a possibilidade de anular a pena no mesmo dia em que a Suprema Corte decidiu sobre a manutenção da condenação - em 16 de fevereiro - e negou que tivesse voltado atrás por conta da pressão externa, apesar de na ocasião a União Europeia (UE) e jornais como o americano The Washington Post e o francês Le Monde terem denunciado o julgamento como um ataque contra a liberdade de imprensa.

A Associação Mundial de Jornais e Editores de Notícias (Wan Ifra), a Repórteres Sem Fronteiras, a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) e a Human Rights Watch foram algumas das organizações que também fizeram críticas à condenação, enquanto o Panamá deu asilo político ao diretor do jornal, Carlos Pérez.

Correa pediu a anulação da condenação ao jornal pela "pressão recebida do exterior, por fatores políticos internos e porque conseguiu que o El Universo fosse condenado", afirmou à AFP José Villamarín, catedrático da Universidade Central e autor de obras como "A Retórica dos Artigos de Opinião".

Mas nesta terça-feira o chanceler Ricardo Patiño afirmou que "queriam que a pressão internacional dobrasse o presidente, e não foi assim, pois ele havia tomado essa decisão (do perdão) tempos atrás".

O principal fator interno para isso seriam as eleições de fevereiro de 2013, nas quais Correa, no poder desde 2007, não descarta a reeleição até 2017 para aprofundar seu programa inspirado no "socialismo do século XXI" do presidente venezuelano, Hugo Chávez.

"Deve ter recebido sinais de que isso estava afetando sua credibilidade", comentou Reyes, que afirmou que o governante reconhece estar sempre em campanha.

Para ele, Correa esteve mal assessorado em suas ações judiciais com compensações "estratosféricas", o que, somado ao fato de não ter podido afastar-se de sua condição de presidente, "confundiram a opinião pública e mancharam sua imagem".

Outros analistas, como Adrián Bonilla, diretor da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), são céticos quanto à possibilidade de a pressão externa e o interesse pela reeleição terem motivado a decisão.

"Depois de cinco anos de confrontação muito dura com a imprensa, o presidente ganhou a disputa em todos os planos, sem que haja evidências de que a opinião da imprensa influísse nos eleitores", completou.

A execução da condenação teria significado a quebra do El Universo, de Guayaquil (sudoeste), jornal fundado há 90 anos, segundo seus donos, que estimam em 35 milhões de dólares o valor patrimonial da empresa.

Apesar do perdão, a briga entre Correa e um setor da imprensa acusado de defender grupos poderosos estaria longe de acabar, concordam os observadores.

"A confrontação vai inclusive aumentar", afirmou Villamarín, para quem muitos veículos continuam na rede que os converteu em "atores políticos de oposição" diante da fragilidade dos partidos.

"A forma como a imprensa e o governo reagiram anunciam que as tensões não vão desaparecer", disse Bonilla, ao lembrar a advertência do presidente de que seu perdão não implica "esquecimento".