Rússia usa diplomacia com medo de perder Síria para Ocidente

O amplo apoio da Rússia ao presidente sírio Bashar al-Assad é visto por analistas como uma estratégia do governo russo para manter um aliado tradicional na região, existindo o temor de que uma Síria pós-Assad possa fazer parte da esfera de influência dos Estados Unidos.

Segundo eles, a Rússia tenta preservar seus interesses militares e comerciais na Síria após perderem a queda de braço com o Ocidente em relação à Líbia, quando europeus e americanos interviram militarmente em favor dos rebeldes líbios, deixando russos e chineses em posição inferior.

Desta vez, de acordo com analistas, a Rússia usou seu poder de veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas para barrar uma ação mais forte contra o regime de Damasco e se manter em uma posição mais forte em relação ao Ocidente, ditando as regras.

No último sábado, dia 4, a Rússia e China vetaram uma resolução dos países ocidentais e apoiada pela Liga Árabe que exgia um fim à violência do governo sírio contra a população civil e a renúncia do presidente Assad.

"Os russos ainda usam uma diplomacia caracterizada por desafiar os Estados Unidos e os outros países ocidentais, além de preservar seus interesses no Oriente Médio a qualquer custo", disse o cientista político Fares Ishtay, da Universidade Libanesa.

Segundo o governo russo, a resolução proposta pelos países ocidentais era uma clara tentativa de mudança de regime na Síria, o que representava uma interferência externa e poderia incentivar uma guerra civil no país. Os russos também declararam que o governo de Assad tinha a intenção de realizar reformas.

"É como se os russos dissessem aos americanso e europeus que se querem mudanças na Síria devem falar primeiro com eles", explicou Oussama Safa, do Centro Libanês para Estudo Políticos em Beirute.

Segundo Safa, a Síria é o único país árabe alinhado com a Rússia, enquanto que Egito, Árabia Saudita e outros fazem parte de uma grupo alinhado com os EUA, que tentam isolar o Irã, que tem uma forte aliança com o regime sírio.

Na última segunda-feira, dia 6, o ministro russo de Relações Exteriores, Sergei Lavrov, visitou a Síria para dar o apoio ao presidente Assad e declarou que a Rússia quer evitar uma guerra civil no país e que o governo sírio entendia que era hora de ações que levassem a reformas.

Estratégias

Analistas no Oriente Médio falam que a Rússia dá o suporte material que o governo sírio usa para reprimir as manifestações populares que exigem a derrubada do regime.

Segundo eles, além do apoio diplomático nas Nações Unidas, os russos continuam a enviar munição e armamentos usados pelas forças de segurança contra a população e o Exército Livre Sírio, composto de voluntários civis e soldados desertores.

Estimativas da ONU dão conta que mais de 5 mil pessoas já morreram desde que o levante popular começou, em março do ano passado. O governo sírio alega que luta contra "gangues armadas e terroristas", e que centenas de integrantes das forças de segurança também já morreram.

A Rússia enviou recentemente uma frota naval, liderada pelo porta aviões Almirante kuznetsov, ao porto sírio de Tartous, em um claro sinal de apoio a Damasco. Segundo jornais árabes, a frota também levou grandes quantidades de munição e armamentos para o governo de Bashar al-Assad.

"A Rússia mantém uma base naval no porto de Tartous, e a Síria é o único país árabe que possibilita aos russos terem acesso ao Meditterâneo e o Oriente Médio. Obviamente que seus interesses estratégicos militares contam muito para os russos", explicou o analista Oussam Safa.

De acordo com ele, a Rússia teme que se Assad cair, um futuro governo composto pela oposição será influenciado pelos EUA e Europa e ameaçará os interesses estratégicos da Rússia.

"A aliança entre russos e sírios vem de décadas, há muita coisa em jogo. E por isso, não é surpresa o amplo apoio que o regime sírio recebe da diplomacia russa", completou ele.

Negócios

Segundo o Centro para Análise De Estratégias e Tecnologias de Moscou, cerca de 90% dos armamentos sírios vêm da Rússia, incluindo mísseis, tanques, aviões, artilharia antiaérea e fuzis. A Síria, por outro lado, representa 7% das vendas da indústria bélica russa e que gira atualmente em torno de US$ 4 bilhões.

"Não se pode dizer que a Siria é o maior cliente dos russos, mas com certeza é um dos mais antigos e constantes clientes que eles têm. O medo russo é que um novo governo sírio passe a comprar mais de americanos e europeus", disse Fares Ishtay.

Segundo ele, a Índia ainda é o maior comprador de armas russas, e o Irã também representa uma grande fatia, embora dados sobre os negócios entre russos e iranianos não sejam divulgados. "Mas a Síria tem um peso importante por ser um país árabe que a Rússia tem como aliado e que pode usar como fonte de balanço contra os Estados Unidos na região".

Além dos contratos de armas, a Rússia tem a preocupação com suas obras de infraestrutura, energia e turismo na Síria que, segundo o dado mais recente, de 2009, totalizam cerca de US$ 20 bilhões.

Mas Ishtay enfatiza que membros da oposição síria já teriam contatado diplomatas russos para "manter as portas abertas" e assegurar ao governo a Rússia que a relação entre os dois países poderia ser mantida mesmo com uma mudança de regime na Síria. "Os russos tem um plano alternativo com certeza para um novo cenário sem Bashar al-Assad", salientou Ishtay. Até lá, segundo ele, a posição russa será a de não deixar que o que aconteceu na Líbia se repita na Síria, principalmente uma intervenção militar estrangeira.