Analistas descartam Primavera Árabe na África Subsaariana 

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Há um ano, chegava ao fim o regime ditatorial de 29 anos de Hosni Mubarak no Egito, após 18 dias de protestos que mudaram os rumos do país. A saída de Mubarak do poder, anunciada quase um mês após a renúncia de Zine El Abidine Ben Ali na Tunísia, confirmava que o ano de 2011 seria marcado por profundas mudanças levadas pela Primavera Árabe a países do Oriente Médio e do norte da África. Mas relativamente perto do Egito, na parte sul do continente africano - chamada de África Subsaariana ou África Negra -, outros ditadores mantêm regimes tão ou mais longos do que Mubarak - José Eduardo dos Santos, por exemplo, está no poder em Angola desde 1979.

O jornalista alemão Oliver August, editor de África da revista The Economist, acredita que o movimento revolucionário que se espalhou pelo mundo árabe no ano passado pode rumar para a região meridional africana. Em artigo publicado na versão da revista em português licenciada para a Carta Capital, August defende que "o espírito de protesto do norte da África vai se espalhar para o sul" em uma "Primavera Subsaariana". "A dinâmica deve ser diferente da dos países na costa mediterrânea, onde os manifestantes eram mais ricos e informados. Todavia, o vírus do protesto é contagioso", afirma o jornalista. "Líderes autoritários na África Subsaariana podem se preparar para um ano de oposição crescente e de tentativas de destroná-los", escreveu Oliver August.

Mas a posição do jornalista alemão é contestada por especialistas, que defendem que a região não possui certas características que foram cruciais para o desencadeamento da Primavera Árabe. O diplomata Marcos de Azambuja, ex-embaixador do Brasil na França e na Argentina e conselheiro do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), afirma não ver "uma reprodução na África Subsaariana daquilo que marcou a Primavera Árabe, que foi um contágio quase simultâneo de uma série de países". "Eles não leem os mesmos jornais, não ouvem as mesmas rádios, eles não têm aquela mesma tradição que o Oriente Médio e o norte da África têm há muitos séculos. Eles são mais dispersos, mais divididos e mais fiéis a eles mesmos", disse o diplomata. "A África Subsaariana é muito mais extensa, são mais de 40 países envolvidos, e não há entre eles aquelas afinidades que fazem o Oriente Médio e o norte da África mais próximos à cultura islâmica, árabe e que determinam certo comportamento comum. A África Subsaariana é mais diversa - há uma África Subsaariana católica, uma islâmica, outra de caráter protestante, são várias tendências religiosas. Há também uma África que fala francês, outra que fala inglês, tem a África do Sul, com poder determinante, há uma grande variedade", afirmou Azambuja.

Devido às condições sociais da maioria desses países, a historiadora Analúcia Danilevicz, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), diz que os povos estão mais preocupados em "garantir sua sobrevivência". "Não é o caso de considerar que são pessoas que vão se rebelar ou têm pelo menos algum tipo de formação política que possa fomentar uma mobilização. Muitos desses países têm uma população muito pobre, extremamente carente, e que não se encontram em uma fase onde realmente essas coisas possam acontecer. Evidentemente que motins, rebeliões, num nível espontâneo, em função das precárias condições de vida, podem acontecer. Mas não é um movimento capaz de ser organizado a ponto de depor a liderança", disse a professora.

O editor da revista The Economist Oliver August utiliza o acesso à comunicação móvel e às redes sociais como argumento para defender uma possível Primavera Subsaariana. "Mais de 1 milhão de nigerianos têm um BlackBerry. A África como um todo tem mais celulares do que os Estados Unidos", escreveu o jornalista alemão. A professora Analúcia Danilevicz admite a importância do avanço das tecnologias nas mobilizações, mas rebate: "se a gente observar a história das revoluções ao longo do século XX, não havia internet e os grupos se organizavam da mesma forma ou até de forma mais intensa. O descontentamento social existe com ou sem internet. O fato é que, nesses casos em que a gente observou o uso das redes sociais, a gente viu um tipo de mobilização que teve como usar esse tipo de recurso. Mas isso não significa que não tê-lo inibiria as mobilizações sociais". O diplomata Marcos de Azambuja também discorda de August: "a África Subsaariana ainda é amplamente rural. É imenso o número de aldeias, de pequenas cidades, de modo que a rede social opera melhor no contexto absolutamente urbano".

Sem tradição de democracia

Um dos fatores que colaboram para que as populações desses países não iniciem revoltas significativas contra seus ditadores é, segundo a professora Analúcia Danilevicz, a inexistência da ideia de alternância de poder na democracia - conceito que faz parte da cultura ocidental, mas não da oriental. "Por isso, os líderes ficam no poder por um longo tempo. Ou porque há uma imposição de determinados setores sociais para garantir esse apoio popular, mas em boa parte dos casos há uma base de apoio popular que garante a manutenção dessas pessoas no poder", disse a professora da UFRGS. "Se a gente pensar no caso do Zimbábue, por exemplo: tem disputa interna, mas (Robert) Mugabe tem apoio popular para se manter no poder - até porque, durante o processo de emancipação do Zimbábue, ele foi uma liderança importante no movimento de libertação e na luta armada", afirmou a historiadora.

Para o diplomata Marcos de Azambuja, um salto entre uma sociedade tribal e uma democrática é muito grande. "A África essencialmente viveu em função de suas fidelidades tribais, no sentido mais amplo da palavra: grandes comunidades, grandes culturas que falam línguas diferentes. Você sai do tribalismo, com línguas diferentes, em países que foram inventados pelas potências coloniais, e não são países desenhados pela naturalidade das culturas, das civilizações, são linhas arbitrárias traçadas", afirmou o ex-embaixador. Ele é otimista em relação ao futuro das ditaduras. "Há uma série de sinais positivos - primeiro, as ditaduras estão em desprestígio e em declínio; segundo, a ideia de partido único, de orientação mais marxista, está em diminuição em função de um multipartidarismo. Mas o multipartidarismo tende a ser não como costuma ser na democracia, em função de interesses econômicos, mas em razão de fidelidades tribais. Não há grandes interesses como centro, esquerda ou direita, mas as fidelidades tribais - você não vai contra sua matriz tribal, contra aquilo que você representa", disse Marcos de Azambuja.