Mais mortes na Síria, enquanto Rússia resiste à ação da ONU 

Um novo banho de sangue varreu a Síria nesta quarta-feira depois de as potências ocidentais e a Liga Árabe pedirem uma ação imediata da ONU para conter a "máquina de matar" do regime, mas a resistente Rússia prometeu vetar qualquer proposta que considerar inaceitável.

A disputa nas Nações Unidas ocorre enquanto os enfrentamentos ferozes aumentam nas regiões da Síria que são um barril de pólvora, matando 59 pessoas, a maioria civis, segundo o Observatório Sírio de Direitos Humanos.

O grupo de monitoramento com sede na Grã-Bretanha disse que pelo menos oito civis foram mortos em ataques a bomba pelas forças do regime na cidade rebelde de Homs, enquanto 24 foram mortos em confrontos na região de Damasco.

Ativistas disseram que o conflito matou quase 200 pessoas em todo o país nos três dias anteriores, enquanto a França informou, nesta quarta-feira, que 6 mil pessoas morreram desde o começo do levante, há quase 11 meses.

A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, apoiada por seus colegas francês e britânico e pelo premiê do Catar, lideraram os pedidos, na terça-feira, de uma resolução da ONU mais rígida que pediria a Assad o fim da matança e a saída do poder.

"Todos sabemos que a mudança está chegando na Síria. Apesar de suas táticas implacáveis, o reinado do terror do regime de Assad vai acabar", disse Clinton no Conselho de Segurança da ONU.

"A questão para nós é: quantos civis inocentes ainda vão morrer antes que este país esteja pronto para seguir em frente?".

No entanto, nesta quarta-feira, o vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia, Gennady Gatilov, pareceu descartar qualquer esperança de uma votação rápida.

"Estão sendo feitas tentativas de encontrar um texto que seja aceitável para todos os lados e que ajude a encontrar uma solução política para a situação da Síria. Por isso não vai haver votação nos próximos dias", disse ele à agência de notícias Interfax.

Analistas alertam que o conflito, entre um movimento de guerrilha apoiado por um número crescente de desertores do exército e um regime cada vez mais empenhado na repressão, ofuscou, em grande parte, os protestos pacíficos vistos no começo do levante.

"Este é o começo de um conflito armado total", disse Joshua Landis, chefe do Centro de Estudos do Oriente Médio na Universidade de Oklahoma.

"Estamos caminhando em direção a um verdadeiro caos", acrescentou. "O povo sírio em geral está começando a perceber que não há um fim mágico para isso, não há um colapso do regime".

O novo número de mortos foi anunciado pela França depois que a chefe dos direitos humanos da ONU, Navi Pillay, disse, no dia 25 de janeiro, que a Organização parou de contar os mortos na repressão dos protestos na Síria porque era muito difícil obter essas informações.

No começo de janeiro, dados da ONU indicavam mais de 5.400 mortos na Síria desde o começo do levante pró-democracia, em meados de março.

O primeiro-ministro do Catar, o xeque Hamad bin Jassim Al-Thani, falando no Conselho de Segurança em nome da Liga Árabe, disse que o regime de Assad "falhou em fazer um esforço sincero" para pôr fim à crise e que o regime acreditava que a única solução era "matar seu próprio povo". "O banho de sangue continuou e a máquina de matar ainda está funcionando", disse ele.

Mas a Rússia, um aliado de longa data de Assad e um de seus principais fornecedores de armas, declarou que a ONU não tinha autoridade para impor uma resolução que pedisse a mudança de regime na Síria, uma posição apoiada pela China.

"Se o texto for inaceitável, então votaremos contra", disse o enviado da Rússia à ONU, Vitaly Churkin, como citou a agência de notícias RIA Novosti.

A Rússia não aprovaria um texto que vê como "incorreto" e que "levaria a um aprofundamento do conflito", disse ele.

O ministro das Relações Exteriores, Alain Juppé, disse a parlamentares em Paris que a Rússia tem uma atitude "menos negativa" em relação à resolução do Conselho de Segurança da ONU.

"Pela primeira vez, a atitude da Rússia e dos BRICS (China, Índia e África do sul no Conselho de Segurança) é menos negativa", disse Juppé.

O projeto de resolução, apresentado pelo Marrocos, membro da Liga Árabe, pede a formação de uma unidade de governo que leve a "eleições livres e transparentes".

Ele destaca que não vai haver nenhuma intervenção militar na Síria como aconteceu na Líbia, que ajudou a derrubar Muamar Kadafi.

Enquanto isso, o comandante do Exército Livre da Síria, o coronel Riyadh al-Asaad, disse da Turquia à AFP que metade do país era agora uma zona em que as forças de segurança não têm acesso.

O jornal Al-Watan da Síria resumiu, nesta quarta-feira, as dezenas de mortes de ambos os lados em confrontos em Homs e outros lugares no centro da síria nos últimos dois dias.

Trinta e sete rebeldes foram mortos no distrito de Homs, quatro soldados em um ataque a um posto de controle em Bab Dreib e 15 rebeldes e dois membros das forças de segurança morreram em enfrentamentos em Rastan, outra cidade do centro do país.