No Ocidente, líder norte-coreano morto é vilão das caricaturas 

WASHINGTON - Ao mesmo tempo em que a memória do ditador norte-coreano Kim Jong-il, falecido recentemente, é cultuada em seu país, sua imagem vem sendo alvo da mídia popular ocidental, através de caricaturas, com os chargistas encontrando nele uma fonte certa de risadas.

De Hollywood a websites, os comediantes se deleitam, alfinetando um líder que tinha como mensagem para o mundo a intolerância a qualquer preço; seu corte de cabelo bufante tornaram-no, às vezes literalmente - um vilão do desenho.

Kim, homenageado em seu país com um grande funeral nesta quarta-feira, ganhou uma paródia na MADtv da Fox. Um apresentador de um talk show fez um rap sobre sua busca a armas nucleares, petrificando membros do elenco que não obedeciam a cada um de seus desejos.

O site "Kim Jong-il Dropping the Bass" mostra o comumente mal-humorado ditador como DJ de uma boate, renunciando aos holofotes para se dedicar à discoteca.

A morte de Kim inspirou de imediato um programa da série americana "30 Rock" da NBC, onde um fictício Kim sequestrou um personagem.

Margaret Cho, a atriz coreano-americana que representou Kim no "30 Rock", escreveu em seu blog que, apesar de o papel ser obviamente cômico, ela sentiu um gosto de tragédia ao vestir o macacão característico.

"Meu coração ficou partido por um país isolado do resto do mundo, que tem como único representante um megalomaníaco louco que se faz de sábio; que, não apenas, pode jogar golfe incrivelmente, mas também dirigir filmes e é metade homem, metade deus - quase só uma metade - e ditador em tempo integral", disse ela.

Talvez a mais conhecida sátira a Kim Jong-il esteja no filme de 2004 "Team America: Polícia Mundial", uma crítica ácida à polícia externa dos EUA, de Try Parker e Matt Stone, criadores da popular série animada "South Park".

Kim, em forma de marionete, alimenta os tubarões com o inspetor de armas da ONU, Hans Blix, conspira para organizar bombardeios pelo mundo e organiza uma "cerimônia de paz" conduzida pelo ator Alec Baldwin.

Num moemento do filme, Kim passeia em volta do seu palácio e canta uma música ao estilo da Broadway "I'm so lonely" (Eu sou tão solitário). Ele cantarola: "eu sou o mais inteligente/ mais esperto, mais em forma/ Mas ninguém parece perceber isso".

As críticas também são direcionadas à mídia oficial norte-coreana, que reportou as supostas façanhas do ditador, como acertar 11 buracos com apenas uma tacada cada um, na sua primeira partida de golfe.

A cobertura da mídia estatal em si ganhou seguidores no exterior. Um blog intitulado "Kim Jong-il observando as coisas" coleciona fotos das inspeções do líder a tudo, de papel higiênico a frutas em suas viagens pelo país.

João Rocha, que criou o blog no ano passado, o kimjongillookingatthings.tumblr.com, disse que o site teve quatro milhões de page-views nos três dias seguintes ao anúncio da morte de Kim.

Rocha, que é diretor de arte da empresa de publicidade Y&R em Lisboa, Portugal, confessou que riu muito ao se deparar com as fotos de Kim, mas ficou surpreso que seu blog tenha gerado tanto interesse.

"O casaco, o chapéu e os óculos, naturalmente (são engraçados), mas seu olhar era a parte mais hilariante disso. Algumas vezes ele parecia não entender para que diabos ele estava olhando", disse Rocha.

Apesar da grande zombaria a Kim, nem todos acharam graça. Os Estados Unidos e seus aliados têm sido cuidadosos nos comentários oficiais sobre a morte de Kim, com a Coreia do Norte alertando a Coreia do Sul para as consequências de qualquer desrespeito.

Os grupos de direitos humanos têm destacado a seriedade dos problemas na Coreia do Norte, dizendo que Kim é responsável por milhares, senão, milhões de mortes por fome, execuções, trabalho forçado e prisões.

Alguns americanos asiáticos estão apreensivos sobre as representações da mídia. O humor em "Team America" também focaliza a pequena estatura de Kim e as dificuldades de alguns asiáticos em distinguir entre os sons do "r" e do "l" em inglês.

Frank H. Wu, reitor e decano da 'University of California Hastings College of the Law' e autor de "Amarelo: a raça além do preto e branco na América" disse que enquanto, praticamente nenhum asiático americano simpatiza com Kim, a comunidade é sensível a estereótipos raciais.

"Quando indivíduos estrangeiros asiáticos são criticados, há o risco de a imagem de um grupo ser afetada negativamente", disse ele.

Os asiáticos são frequentemente retratados como incompreensíveis e estúpidos ao seguir um líder. Os asiáticos-americanos não ficam de fora, recebendo os mesmos adjetivos, agravados quando participam da política, com a transmissão de uma imagem de desonestidade e incapacidade de um pensamento independente".