Poder militar egípcio é criticado por sua repressão

Os confrontos que já deixaram 12 mortos e centenas de feridos em cinco dias no Cairo envergonham o poder militar, criticado pelo mundo inteiro nesta terça-feira (20) por sua repressão contra os manifestantes, particularmente contra as mulheres.

Pelo menos quatro pessoas ficaram feridas antes do amanhecer na Praça Tahrir. Manifestantes jogaram pedras em resposta aos tiros da polícia, antes do retorno à calma nesta manhã.

Um funcionário do ministério da Saúde anunciou na televisão estatal um balanço de quatro mortos.

Um coordenador de socorro aos manifestantes, Mohamed Mustafá, afirmou à AFP que quatro pessoas foram mortas.

"Nestes últimos dias, os confrontos aconteceram entre 3H30 e 5H00 da manhã" (23H30 e 1H00 de Brasília), informou.

Ativistas convocaram uma manifestação na Praça Tahrir às 15H00 (11H00 de Brasília) para denunciar a violência contra as mulheres e manifestantes em geral.

O jornal independente Tahrir, criado após a queda do presidente Hosni Mubarak em fevereiro, escreveu em sua manchete "a força que ataca a honra", com uma foto de um soldado segurando uma mulher pelos cabelos, enquanto outro batia com um bastão.

A violência contra as mulheres nas manifestações são indignas da revolução e "desonram o Estado" egípcio, acusou a secretária de Estado americana Hillary Clinton, com uma linguagem pouco diplomática.

A alta comissária dos direitos Humanos da ONU, Navi Pillay, condenou "a repressão brutal" dos manifestantes.

"A violência brutal contra as mulheres que manifestavam pacificamente é particularmente chocante e não pode permanecer impune", ressaltou.

O Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA), que governa o Egito desde a queda do antigo regime, defendeu a atitude das forças de segurança.

O general Adel Emara, membro da CSFA, reconheceu na segunda-feira (19) que os soldados atingiram uma manifestante, descobriram sua barriga e mostraram seu sutiã ao arrastá-la pelo chão, uma cena particularmente chocante que foi fotografada em um país conservador.

Mas, tentou justificar o comportamento dos soldados.

"Sim, isso aconteceu. Mas é preciso ver quais eram as circunstâncias", afirmou, assegurando: "estamos investigando, não temos nada a esconder".

Um grupo de deputados recém-eleitos nas eleições que começaram no dia 28 de novembro, as primeiras pós-Mubarak, observaram um sit-in diante da Suprema Corte para exigir o fim da violência contra os manifestantes e a abertura de uma investigação.

Os confrontos explodiram na sexta-feira entre a polícia e manifestantes acampados desde o final de novembro na frente da sede do governo em protesto contra a nomeação do primeiro-ministro Kamal el-Ganzuri, que já ocupava este posto na era Mubarak.

Os manifestantes exigem igualmente o fim do poder militar e visam principalmente o chefe das Forças Armadas e do Estado, o marechal Hussein Tantawui.

Esta violência é a mais grave desde os confrontos que fizeram pelo menos 42 mortos, principalmente no Cairo, poucos dias antes das eleições legislativas.

Ela eclipsou a segunda fase de votação, que acontece na quarta e quinta-feira em um terço do país, e que confirmou a predominância clara de grupos islâmicos em detrimento dos partidos liberais e dos movimentos da revolta anti-Mubarak.