Confrontos sangrentos ofuscam contagem de votos no Egito 

Tropas egípcias entraram em confronto com manifestantes contra o governo militar no poder, nesta sexta-feira, na pior onda de violência em semanas, ofuscando a contagem do votos da segunda fase de uma eleição geral histórica.

Cerca de 100 pessoas ficaram feridas com as sucessivas tentativas para dispersar uma manifestação pacífica em frente aos escritórios do gabinete, que pedia a transição imediata para um governo civil, relatou a televisão estatal.

A emissora também informou que 32 membros das forças de segurança ficaram feridos, inclusive um oficial atingido por disparos feitos de uma arma que seria dos manifestantes.

Os confrontos, que começaram de madrugada, foram os mais sangrentos desde os cinco dias de protestos em novembro, que mataram mais de 40 pessoas, pouco antes das primeiras eleições parlamentares do Egito desde a saída do presidente Hosni Mubarak em fevereiro.

A violência começou depois que um manifestante ensanguentado disse ter sido preso pelos soldados e agredido, enfurecendo seus colegas, que começaram a atirar pedras nos soldados, segundo testemunhas.

Os manifestantes também atiraram bombas incendiárias conforme os protestos continuavam durante a manhã, com tropas e a polícia militar atacando repetidamente a multidão, relataram correspondentes da AFP.

"O povo pede a execução do marechal em campo", gritavam em coro, em referência à Hussein Tantawi, chefe do Supremo Conselho das Forças Armadas que assumiu o poder depois da saída de Mubarak.

No começo da tarde, a polícia militar recuou para uma rua lateral, mas os manifestantes foram atacados com pedras por homens à paisana de outro prédio do governo e, como resposta, quebraram as janelas dos escritórios do Ministro de Transportes.

O blogueiro Mostafa Hussein disse que os manifestantes conseguiram chegar à entrada de escritórios do gabinete depois de quebrar o portão frontal, mas foram expulsos por um grande número de tropas.

Um correspondente da AFP viu manifestantes ensanguentados sendo levados por seus colegas e uma sequência de prisões. As tropas liberaram posteriormente alguns dos manifestantes detidos.

O conhecido ativista Nur Nur, filho do ex-candidato à presidência Ayman Nur, foi visto atrás de um cordão da polícia militar mancando, com um grande ferimento na cabeça.

Um oficial militar culpou os manifestantes pela violência, dizendo à AFP que os soldados envolvidos nos confrontos tinham a missão de proteger o gabinete e não tentaram interromper a manifestação pacífica.

Mohamed ElBaradei, o ex-chefe de fiscalização nuclear da ONU, dissidente e candidato à presidência, condenou o que chamou de tentativa selvagem de dispersão da manifestação pacífica.

Em uma postagem no twitter, ele indagou: "mesmo se a manifestação fosse ilegal, deveria ter sido dispersada de forma tão selvagem e brutal, que em si é a maior violação de todas as leis e da humanidade?"

O partido Justiça e Igualdade da Irmandade Muçulmana, que está na frente nas eleições parlamentares até agora, condenou "o ataque aos manifestantes e a a tentativa de dispersá-los". O partido pediu aos militares para proteger os manifestantes de homens que davam um banho de pedras dos telhados.

Tantawi, em um gesto aparentemente para acalmar os manifestantes, ordenou o tratamento de todos os civis feridos em hospitais militares, que normalmente são melhor equipados que os civis, segundo informações da televisão estatal.

Os manifestantes estão acampados do lado de fora dos escritórios do gabinete desde 25 de novembro.