Cristãos coptas temem subida ao poder de islamistas no Egito

Quando a cristã copta egípcia Sarah M. recebeu uma ligação da igreja de Ramsés, seu bairro no Cairo, um dia antes das eleições parlamentares do dia 28 de novembro, ela já sabia do que se tratava. Segundo ela, a voz do outro lado da linha recomendou a Sarah que votasse com "consciência e em prol da comunidade cristã". Em outras palavras, a igreja copta queria que ela votasse em candidatos cristãos.

"Eu apenas respondi que entendia e desliguei. Alguns amigos meus receberam ligações semelhantes poucos dias antes eleições", disse ela ao Terra. A mídia egípcia relatou casos semelhantes ao de Sarah na semana anterior ao pleito. Alguns cristãos declararam à mídia que foram "pressionados" a não votarem em candidatos muçulmanos, mesmo que fossem de partidos seculares.

Segundo o analista independente egípcio Emad Gad, o medo dos coptas no Egito, que somam cerca de 10% dos 80 milhões de habitantes do país, não é nenhuma novidade. Mesmo antes da renúncia de Hosni Mubarak, em fevereiro desde ano, após protestos populares, incidentes sectários já vinham aumentando.

"Mas para os coptas, o problema maior seria a subida ao poder dos partidos islamistas. Alguns deles, como os salafistas, são mais fundamentalistas e pregam um Estado islâmico, baseado na sharia (lei islâmica".

Os resultados parciais das eleições para a Câmara dos Deputados no Egito devem sair a partir de amanhã, segundo o governo. Mas previsões dão conta de que os dois maiores partidos islâmicos - o Justiça e Liberdade, ligado aos moderados da Irmandade Muçulmana, e o Nour, criado pelos salafistas, considerados mais radiciais -, devem ganhar entre 50 a 60% dos assentos no Parlamento, caso mantenham o ritmo eleitoral nas próximas eleições em outras províncias.

Segundo Gad, isso deixaria os liberais e seculares com cerca 40%, deixando o bloco islamista com uma maioria e podendo formar um governo. "Mas salafistas e Irmandade estão em colisão, com ideologias diferentes e visões políticas para o Egito também diferentes. Se não conseguirem formar uma coalizão, então os mais moderados, como a Irmandade poderá foramr um governo com os liberais".

Seculares

A egípcia Sarah contou que preferiu votar em um candidato que tivesse ideias seculares e não seguiu a recomendação de sua igreja. "Não votei baseada se o candidato era cristão ou muçulmano e sim na sua visão de sociedade e o tipo de ideologia de seu partido", salientou.

Outro cristão, Yehia al G., falou que também recebeu uma ligação da igreja com o mesmo pedido para votar em cristãos ao parlamento. "Eu votei em um candidato cristão porque tenho medo dos fundamentalistas chegarem ao poder. Precisamos de gente da nossa comunidade no Parlamento", disse.

Curiosamente, outro egípcio copta, Ibrahim D., disse que votou em um candidato jovem e com ideias liberais da Irmandade Muçulmana. "Se eu seguisse essa lógica de votar em candidatos cristãos, então eu estaria sendo tão sectário quanto os fundamentalistas muçulmanos. Os jovens da Irmandade querem um Egito justo e de liberdade para as minorias. E esses são os mesmos que gritaram contra Mubarak nas ruas", salientou.

Os três cristãos pediram que seus sobrenomes fossem abreviados por medo de represálias da Igreja e comunidade.

Diferenças

Mas colunistas do país falaram das diferenças internas dentro da Irmandade Muçulmana, maior e mais antigo movimento islâmico do mundo árabe. E a dificuldade de islamistas em implantar um Estado islâmico em uma sociedade muito diversa e ampalmente favorável ao secularismo.

"A nova geração de integrantes da irmandade simpatiza com ideias seculares e tem um bom relacionamento com outros jovens liberais e seculares, que juntos foram às ruas contra Mubarak", disse a colunista do Al Ahram, Azza Heikal.

Segundo ela, a Irmandade enfrenta problemas internos, um "racha entre a velha guarda e a nova geração". "Os jovens islâmicos da Irmandade brigam cosntantemente com os mais antigos, a quem chama de 'velha escola'", disse.

Mais de 40 partidos participaram do pleito no Egito, com mais de 10 mil candidatos que concorreram a 498 cadeiras para a Câmara dos Deputados. Segundo o analista Emad Gad, se os islamistas chegarem ao poder, terão enormes dificuldades de governar, especialmente sem o apoio da elite econômica e militares, mais propensos ao secularismo.

"Os grupos islamistas moderados devem levar em conta o medo e anseios das minorias do Egito e também o desejo dos muç ulmanos seculares em ver uma sociedade de todos. Sem isso, estarão fadados ao fracasso em um governo", alertou.