Primavera Árabe: interesse ou revolução?

Os Estados Unidos são parte certa de praticamente qualquer teoria da conspiração. Então, quando as revoluções no norte da África e no Oriente Médio se consolidaram com a chamada Primavera Árabe, não demorou para que muitos suspeitassem de algum complô internacional, liderado, é claro, pelos ditos "xerifes do mundo", os americanos.

O esquema já seria conhecido de outros países com histórias parecidas, como o Afeganistão e o Iraque. Um regime governa o país com apoio dos Estados Unidos e das potências ocidentais, até que os interesses mudam, e o governante precisa ser derrubado.

O assassino econômico

Confissões de um assassino econômico, livro escrito pelo americano John Perkins, dá um bom insight sobre como a dinâmica funcionaria. Como funcionário de uma empresa de consultoria internacional, Perkins convencia países subdesenvolvidos e em desenvolvimento a contrair grandes empréstimos, que deveriam ser usados para pagar obras de infraestrutura. Sua função era, ainda, garantir que companhias americanas fossem contratadas para o trabalho.

Como as quantias emprestadas eram sempre maiores que as que os países podiam pagar, os fundos de empréstimos internacionais e o governo americano conseguiam negociar as dívidas de acordo com os seus interesses – petróleo, recursos naturais, bases militares.

Quando Perkins não conseguia que o governo entrasse no esquema, outras medidas eram tomadas. Revoluções contra governantes eram forçadas e presidentes eram até mesmo assassinados.

O levante

Se o relato pessoal de Perkins assegura que tal esquema existiu – e mais, que ainda existe –, quando se fala da Primavera Árabe, a questão fica um pouco mais complicada. Para o professor de História Contemporânea da UFF Bernardo Kocher, não se pode descartar, em países como a Líbia e o Egito, por exemplo, a existência de um forte movimento social.

"Existem certas nuances que nos impedem de dizer que haverá um alinhamento automático dos novos governos com os Estados Unidos ou com o Ocidente. No Egito mesmo os americanos hesitaram em apoiar a queda de Mubarak", pondera Kocher.

O professor defende, ainda, que existem, sim, conjunturas internas que explicam a Primavera Árabe. Em primeiro lugar, esses países teriam passado por transformações econômicas que os colocaram na direção do mundo globalizado. Essas mudanças, entretanto, "não foram acompanhadas de mudanças nas políticas públicas".

"Os regimes ficaram defasados; de um lado economicamente atualizados, adaptados, e, de outro, politicamente atrasados, com formações da época da Guerra Fria", completa.

Outro fator que teria em muito influenciado os levantes populares foi a crise financeira de 2008. Kocher explica que, apesar de os problemas econômicos terem gerado um mal-estar social, com as altas no desemprego e o medo da recessão, os governos contestados não tomaram medidas que amparassem a população.

Amigos, amigos, negócios à parte

Mesmo que tais aspectos consigam justificar perfeitamente uma revolução, não é possível deixar de notar a mudança de postura do Ocidente em relação aos regimes derrubados. Afinal, as grandes potências apoiavam esses governos que agora ajudam a derrubar.

Mas, segundo a professora de História Comparada da UFRJ Sabrina Medeiros, esses regimes mostram, hoje, uma instabilidade social que não é interessante para o Ocidente. Os movimentos que eclodiram na região revelaram fraturas, forçando uma renovação da política externa por parte das forças internacionais.

"Não resta às potências outras medidas que não a revisão de suas alianças, e isso passa pelo reconhecimento desses novos grupos emergentes e pela tentativa de estabilizá-los", afirma Sabrina.

Mas isso não será tão fácil. Como explica Sabrina, depois de derrubados os regimes, a população tem o desafio de decidir quem irá representá-la. Se na Líbia o Conselho Nacional de Transição liderou a revolução, isso não quer dizer que, necessariamente, serão eles o novo rosto da democracia líbia.

"Novas forças clamarão para si a construção do novo governo. A ideia da democracia é múltipla, e cabe à população pensar em que alternativas são essas", sustenta a professora.

Apuração: Maria Eduarda Ornellas