Ortega caminha para a reeleição na Nicarágua, com o controle do parlamento

O sandinista Daniel Ortega já garantiu 64% dos votos nas eleições presidenciais da Nicarágua e uma maioria folgada no Parlamento, embora a oposição ainda não reconheça a derrota, em meio a sérias denúncias de irregularidades na votação.

O candidato direitista Fabio Gadea, que vem em segundo lugar, com um distante 29% de votos, segundo a contagem oficial de 38,8% das seções, limitou-se a fazer um apelo à "calma", através de seus porta-vozes de campanha e das redes sociais.

O presidente do Conselho Supremo Eleitoral (CSE), Roberto Rivas, anunciou para agora à tarde a divulgação de um relatório sobre os resultados de 90% das seções, depois do que Gadea, um empresário do setor de rádio, de 79 anos, planeja fazer um pronunciamento.

Enquanto isto, opositores e críticos de Ortega falam de "fraude", e os seguidores da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) dão prosseguimento aos festejos que iniciaram com euforia na noite de domingo.

Ortega não aparece em público desde que votou, mas sua mulher e chefe de campanha, Rosario Murillo, proclamou-o vencedor na noite de domingo: "Obrigada Nicarágua. É uma vitória do cristianismo, do socialismo e da solidaridade", afirmou nos meios oficiais.

O presidente fará na sexta-feira 66 anos.

A jornada, para a qual foram chamados 3,4 milhões de eleitores, esteve marcada por denúncias de irregularidades e incidentes como confrontos entre opositores e sandinistas em Manágua e no norte do país, com vários feridos e detidos, e a queima de urnas.

As missões da Organização de Estados Americanos (OEA) e da União Europeia (UE) denunciaram "obstáculos" a seu trabalho por parte do CSE, o Conselho Superior Eleitoral -ligado ao sandinismo-, e "fraudes", mas ainda não divulgaram sua avaliação final.

No comando do segundo país mais pobre das Américas, Ortega, aliado do presidente venezuelano, Hugo Chávez, tem o apoio de setores humildes que se beneficiaram dos planos de assistência financiados com a cooperação de Caracas - de 500 milhões de dólares anuais - criticados pelos opositores.

Nesta segunda-feira, Chávez felicitou a vitória de Ortega, reiterando a vontade de continuar apoiando-o; o presidente de Cuba, Raúl Castro, também saudou sua vitória.

A própria candidatura de Ortega foi motivo de controvérsia porque habilitada por uma Corte Suprema de Justiça com juízes sandinistas, em maioria, uma vez que a Constituição proíbe a reeleição consecutiva.

Se confirmado, o FSLN, que governou durante os anos 80 depois da revolução que derrotou a ditadura, e que voltou ao poder, em 2007, não apenas governará por mais cinco anos, mas também terá maioria no Congresso, com pelo menos 56 dos 90 deputados.

"O FSLN obteria o controle total do aparelho do Estado e do Congresso, o que permitirá fazer, sem necessidade de pactos, reformas constitucionais" para continuar no poder, disse à AFP o analista independente Alejandro Serrano, presidente da Corte Suprema de Justiça no governo sandinista dos anos 80.

Durante os 17 anos que o FSLN esteve na oposição, e no período de governo, Ortega estabeleceu alianças políticas com antigos adversários como o ex-presidente liberal Arnoldo Alemán, para distribuir o controle dos poderes do Estado, assim como para fazer reformas como a que reduziu a 35% o mínimo de votos no primeiro turno para ganhar a presidência.

Mais além dos eventos políticos, os nicaraguenses têm uma história marcada por guerras, intervenções americanas e ditaduras, e votaram preocupados com a pobreza, que incide sobre 45% dos 5,8 milhões de habitantes, e o subemprego (53%).