Família celebra libertação de palestino casado com brasileira

Enquanto milhões de israelenses se alegravam com a libertação do soldado Gilad Shalit, mantido em cativeiro desde 2006 pelo Hamas na Faixa de Gaza, os palestinos celebravam nesta terça-feira o anúncio da libertação de 1.027 presos palestinos de prisões israelenses. Entre eles estavam os familiares da brasileira Lamia Maruf, cujo marido, Tawfic Abdallah, foi posto em liberdade depois de 26 anos de prisão.

"Graças a Deus, todos os palestinos, hoje, estamos alegres. Estamos esperando este dia há 26 anos, sem perder a esperança", disse seu irmão Djafar Abdallah, que também esteve preso durante cinco anos em Israel. Lamia e Tawfic haviam sido condenados à prisão perpétua em Israel por participar do sequestro e assassinato do soldado israelense David Manos, em 1986. Ela foi deportada ao Brasil em 1997, após 11 anos de prisão em Israel, mas seu marido permaneceu preso.

A prima Jelille Abdallah, que morou 15 anos no Brasil e fala português fluentemente, esperava animada e ansiosa o término do discurso do presidente Mahmmoud Abbas na sede do governo em Ramallah. "A gente sempre teve esperança de que ele seria libertado. Preparamos uma festa muito grande", disse ela, que se emocionou com lágrimas nos olhos ao ver o primo abraçado por uma multidão de palestinos.

De Ramallah, Tawfic foi levado para participar de um ato festivo da prefeitura de Salfit e concluir os festejos em Deir Balut, onde vive a família. A filha Patricia, que mora no Brasil com Lamia, viajou até o vilarejo palestino para rever o pai.

Ceticismo sobre o futuro

Passadas mais de duas décadas, o irmão de Tawfic não acredita que tenha havido "grandes mudanças" nas relações entre Israel e Palestina e diz que faria tudo igual em sua luta pelo fim da ocupação do território palestino. O irmão não vê a conclusão do acordo de troca de Shalit pelos prisioneiros palestinos, feita com a mediação do Egito, como um sinal de que a negociação entre Israel e Palestina no futuro seja possível. "Não é um indício. Tinha que ser assim. A gente gostaria, mas é muito difícil", afirma Djafar.

Hoje, Tawfic reconhece que Abbas prefira a estratégia da resistência pacífica à luta armada, mas continua sem acreditar no caminho das negociações com Israel. Por outro lado, o agora ex-preso espera que as Nações Unidas apoiem a criação da Palestina. Livre, Tawfic planeja o futuro: seguir na Cisjordânia como membro do Fatah ou pedir autorização para ir ao Brasil, onde reside a mulher e a filha. Segundo falou à rede BBC o advogado da família, a segunda opção é a mais provável.

Tawfic é um dos primeiros 447 prisioneiros já libertados de 11 prisões israelenses. O acordo firmado entre o governo de Israel e o Hamas com mediação do Egito prevê a liberação de mais 580 prisioneiros palestinos em até dois meses. A maioria dos detentos foram acusados e sentenciados por crimes que vão desde jogar pedras em soldados israelenses a planejar ataques a bomba durante a primeira e segunda Intifadas.