Troca de presos por Shalit é 'tragédia', criticam israelenses 

Parte da população de Israel manifestou nesta segunda-feira o seu descontentamento sobre a troca do soldado Gilad Shalit, sequestrado pelo Hamas em 2006, por 1.027 presos palestinos, em frente à Suprema Corte do país. Dentro do prédio, os magistrados deram luz verde para a troca de prisioneiros com o Hamas, rejeitando pedidos contra o acordo.

Para a dona-de-casa Hana Rosenfelder, que perdeu dois amigos, vítimas de atentados realizados por presos palestinos, a decisão é uma "tragédia". "Não é possível que em cinco anos o governo não tenha conseguido liberar um soldado ou pressionar os palestinos com cortes de eletricidade ou outras medidas", disse ao Terra. "É uma tragédia para todo Israel, ainda que seja um dia de felicidade para a família Shalit. E também para o resto do mundo, porque envia a mensagem de que o terror pode vencer", lamentou.

"(O soldado Gilad) Shalit vai voltar para casa!", comemorava um senhor manifestante em frente ao edifício sobre o acordo assinado pelo governo do premiê israelense Benjamin Netanyahu com o grupo Hamas, que governa a Faixa de Gaza. "Mas a que preço? Por mil terroristas?", contestava um rapaz judeu ortodoxo.

Uma das denúncias contra o acordo foi reinvindicada por Meir Schijveschuurder, que perdeu os pais e três irmãos em um atentado em Jerusalém, em 2001, na pizzaria Sbarro. O ataque a bomba matou mais 10 pessoas, inclusive o brasileiro-israelense Giora Balazs, 68 anos. "Não posso entender como o assassino de Gandhi (ministro e general israelense Rehavam 'Gandhi' Ze'evi, morto em 2001), que matou apenas uma pessoa, continua preso. Isto é uma loteria?", protestou.

Seu irmão Shvuel Schijveschuurder se exaltou contra Noam Shalit, pai de Gilad, sentado na primeira fila da audiência. "Levante uma bandeira negra em sua casa em Mitzpe Hila, este é um dia de luto", gritou Shvuel, que na semana passada pichou o memorial de Itzak Rabin em Tel Aviv para protestar contra a troca aceita por Netanyahu.

Por sua vez, aguentando firme as denúncias contra o acordo que deve liberar seu filho amanhã, Noam afirmou que ele e sua família tinham consciência de que o acordo se trata de "uma difícil troca". "Nossos corações estão com as famílias. Entendemos a dor deles. Teríamos preferido que Gilad fosse liberado com um acordo mais leve, mas infelizmente, o Estado de Israel falhou, por cinco anos, em recuperar Gilad", disse Noam à imprensa após a audiência.

A estatística Adi Meir perdeu três amigos vítimas de terrorismo e disse ao Terra que estava "triste e desapontada" com o governo. "Muita gente vai morrer por causa deste acordo", opinou. "O governo não foi capaz de resistir perante o terrorismo. É como dizer aos terroristas: venham, sequestrem quem quiserem, que pagamos o preço".

O programador e ex-combatente das Forças de Defesa de Israel (IDF), Reshef Meir, destacou que o governo tomou a "decisão errada", que deve trazer arrependimento no futuro. "Um dos perigos não é só a libertação de um milhar de presos, é que muitos mais poderão considerar fazer o mesmo porque eles vêem que pode ser efetivo. Agora os palestinos pensarão que os meios diplomáticos falharam e que é melhor seguir com atos de terror", afirmou.

Reshef também analisou o papel da imprensa em hiperdimensionar o caso da família Shalit em detrimento ao sofrimento dos familiares e amigos das vítimas. "Uma única vítima com um rosto, sempre provoca mais empatia que um milhão de pessoas sem rosto, pois não sabemos quem serão as vítimas do futuro", afirmou. "Os tomadores de decisão não podem pensar com seus corações, com suas emoções, eles têm que fazer o que é melhor para a população inteira", completou.

Maioria favorável à troca

Um pesquisa de opinião realizada pelo instituto Yedioth Ahronoth-Dahaf informou nesta segunda-feira que 79% dos israelenses aprovam o acordo, enquanto apenas 14% disseram que estão contra a iniciativa. A consulta foi elaborada com uma amostra representativa da população adulta de Israel, com 500 pessoas e uma margem de erro de 4,4%.

Nesta terça, os primeiros 477 prisioneiros palestinos - condenados por crimes contra Israel desde ataques suicidas a atirar pedras em soldadosdurante a primeira e segunda intifadas - serão libertados em troca de Shalit. O Hamas já preparou festas de bem-vinda aos 295 que serão enviados para a Faixa de Gaza. Um grupo de palestinos será recebido em Ramallah pelo presidente Mahmoud Abbas.

Outros serão levados à fronteira com o Egito, no deserto do Sinai, onde a troca pelo soldado israelense será efetuada. Shalit será levado em um helicóptero a uma base aérea de Israel, onde receberá tratamento médico e psicológico.