Abbas pede que ONU admita a Palestina com fronteiras de 1967

O presidente palestino, Mahmud Abbas, apresentou nesta sexta-feira o pedido de adesão à ONU de um Estado da Palestina, apesar da ameaça de veto dos Estados Unidos e da rejeição de Israel, uma decisão histórica justificada com um discurso perante uma Assembleia Geral que o ovacionou.

"Submeti ao secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, o pedido de admissão da Palestina com base nas fronteiras de 4 de junho de 1967, tendo Jerusalém como capital, como membro pleno das Nações Unidas", disse Abbas no ápice de seu emotivo discurso, exibindo a carta com o pedido de adesão.

"Chegou a hora para que meu orgulhoso e valente povo, após décadas de deslocamentos, ocupação colonial e sofrimento incessante, viva como os outros povos da terra, livre em uma pátria livre e soberana", acrescentou Abbas, muito aplaudido ao entrar no plenário e em vários momentos de seu discurso.

Abbas entregou a carta com o pedido de adesão a Ban Ki-moon em uma curta reunião bilateral pouco depois das 11h35 locais (12h35 de Brasília), constatou a AFP.

Abbas apresentou o pedido em uma pasta com o símbolo palestino em um dos lados, e o secretário-geral da ONU a abriu brevemente para ver seu conteúdo.

A demanda palestina será estudada "rapidamente" pela Secretaria-Geral das Nações Unidas e enviada ao Conselho de Segurança, seguindo os procedimentos, indicou nesta sexta-feira o porta-voz da ONU, Martin Nesirky.

Imediatamente, Israel, que exige uma negociação bilateral como condição prévia para a existência do Estado palestino, "lamentou" a decisão, segundo o porta-voz do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, Gidi Shmerling.

Já os Estados Unidos convocaram Abbas a retornar às "negociações diretas" com Israel.

"Quando o discurso acabar, todos devemos reconhecer que o único caminho para criar um Estado é através de negociações diretas, não de atalhos", disse a embaixadora americana na ONU, Susan Rice.

Durante seu discurso, o presidente Abbas afirmou que Israel "destruiu" todos os esforços para alcançar um acordo de paz e atacou sua política de colonização, embora tenha afirmado que os palestinos estão dispostos a voltar à mesa de negociações.

"Estes esforços sinceros e as iniciativas internacionais foram repetidamente destruídos pelas posições do governo israelense, que rapidamente pôs fim às esperanças que surgiram no lançamento de negociações em setembro", disse.

Para Abbas, de 76 anos, considerado a antítese de seu carismático antecessor Yasser Arafat, trata-se do papel mais importante de sua carreira como defensor inabalável do direito a um Estado palestino.

Seu pedido de reconhecimento de um Estado da palestina como 194º membro pleno da ONU foi realizado com base nas fronteiras de 4 de junho de 1967, pouco antes da Guerra dos Seis Dias de 1967, e inclui a Cisjordânia, a Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental como capital.

Abbas resistiu a todas as pressões, em particular à dos Estados Unidos, que exigiam que voltasse atrás em sua decisão.

O presidente americano, Barack Obama, rejeitou nesta quarta-feira na Assembleia Geral a iniciativa palestina, convocando os palestinos a negociar com os israelenses.

Os Estados Unidos, principal aliado de Israel, ameaçaram se opor no Conselho de Segurança, onde os palestinos precisam de nove votos de um total de 15 e que nenhum dos membros permanentes (EUA, Rússia, China, Grã-Bretanha e França) utilize seu poder de veto.

Os palestinos dizem contar com os nove votos positivos necessários, entre eles os de Rússia, China, Brasil, Líbano e África do Sul.

Neste sentido, a França advertiu nesta sexta-feira que a iniciativa palestina pode conduzir a um "beco sem saída" no seio do Conselho de Segurança e indicou que sua proposta de um status intermediário de Estado observador "segue sobre a mesa".

O voto no Conselho de Segurança levaria várias semanas, mas os palestinos disseram que estão dispostos a esperar seu veredicto antes de buscar outras alternativas.

"Se em um algum momento considerarmos que há um adiamento injustificado, iremos à Assembleia Geral", declarou na quarta-feira outro negociador palestino, Nabil Chaath.

Na América Latina, países como Brasil, Argentina, Venezuela, Cuba, Chile e Peru reconheceram o Estado palestino.

Já a Colômbia - que atualmente é um dos 10 membros não permanentes do Conselho de Segurança da ONU - alinhou-se com a posição israelense.

A presidente brasileira Dilma Rousseff, primeira mulher na história da ONU a inaugurar os debates da Assembleia Geral, resumiu na quarta-feira o sentimento da maior parte da América Latina, explicando que o reconhecimento do Estado palestino ajudará a conquistar uma "paz duradoura no Oriente Médio".

Em 1947, as Nações Unidas votaram a partição da Palestina em dois Estados, um árabe e outro judeu com uma zona internacional em torno de Jerusalém. Quando Israel proclamou sua independência, em 1948, os países árabes a rejeitaram e entraram em guerra contra o novo Estado.

Vencedor nestes conflitos, Israel ocupa atualmente partes da Cisjordânia e anexou de fato Jerusalém Oriental. Mais de 300 mil colonos israelenses estão instalados na Cisjordânia ocupada e 200 mil israelenses vivem em Jerusalém Oriental.

Os palestinos da Cisjordânia ovacionaram o discurso de Abbas, transmitido por telões instalados em várias cidades, entre elas Ramallah (capital política), Hebron (sul) e Naplus (norte).

"Com nossas almas, com nosso sangue, defenderemos a Palestina!", gritava a multidão ao final do discurso do presidente palestino.

Do lado israelense, o Exército e a Polícia estão em estado de alerta e mobilizaram 22 mil policiais ao longo da "linha verde" que separa Israel da Cisjordânia.