"Cenário político norte-americano é permeado por estratégias ligadas à conspiração", diz especialista

Em setembro de 2010, o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, discursou durante a 65ª Assembleia Geral da ONU. Suas palavras causaram tanto espanto que fizeram com que as delegações dos EUA, da Inglaterra e da União Europeia se retirassem da sala. O conteúdo de seu discurso? As controversas teorias conspiratórias que rodeiam o atentado que derrubou as torres do World Trade Center (WTC), em Nova York, no dia 11 de setembro de 2001.

"Certos setores no governo americano orquestraram o atentado para reverter a queda na economia americana e no seu controle sobre o Oriente Médio e para salvar o regime sionista. A maior parte do povo americano e outros países e políticos concordam com este ponto de vista", disse Ahmadinejad.

A declaração pode ter desconcertado os diplomatas que presidiam a Assembleia, mas a mensagem dificilmente era novidade para seus receptores. A teoria de que os EUA participaram ativamente da elaboração dos atentados de 11 de setembro é amplamente difundida na internet. 

Talvez a mais popular, uma delas defende que o World Trade Center tenha sido implodido. Isso porque, segundo alguns teóricos, o desmoronamento dos prédios aconteceu de forma muito rápida. Além disso, existem relatos de pessoas que estavam no prédio no dia do atentado que afirmam terem ouvido barulhos de explosões momentos antes do ataque.

No documentário Zeitgeist, produzido por Peter Joseph, engenheiros corroboram esta teoria, dizendo que a maneira com que o prédio caiu é típica de uma implosão e apontam, em imagens, pontos que seriam explosões ocorridas nos andares inferiores. Les Robertson, engenheiro estrutural do WTC, e Frank Demartini, supervisor de construção do WTC, garantem que as torres gêmeas foram projetadas para resistirem ao impacto dos aviões.

Entretanto, um inquérito do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia concluiu que os aviões romperam colunas de suporte do edifício e que cerca de 40 mil litros de combustível de avião foram espalhados pelos andares, dando início a diversos incêndios. A alta temperatura, que, em alguns lugares chegou a mil graus Celsius, fez com que o piso dos andares cedesse e as colunas se curvassem, provocando o chamado “efeito panqueca”, quando um andar desmorona em cima do outro.

Outra teoria dá conta de que o ataque no Pentágono tenha sido resultado da colisão de um míssil, e não de um avião. As suspeitas, porém, foram contrariadas em 2006, quando foram liberadas as imagens das câmeras de segurança do Pentágono, depois que a organização de defesa de direitos legais, Judicial Watch, usou o Ato de Liberdade de Informação para obtê-las.

"Finalmente, nós esperamos que o vídeo ponha fim às teorias conspiratórias envolvendo o vôo 77 da American Airlines", disse o presidente do grupo, Tom Fitton, na ocasião.

Outra queda suspeita foi a do vôo 93, da United Airlines, que caiu em Shanksville, na Pensilvânia. A teoria defende que o avião tenha sido derrubado por um míssil e se desintegrado no ar, já que as imagens do local do acidente não mostram nenhum destroço da aeronave. O relatório da Comissão do 11/9 garante que existem fotos que mostram claramente os destroços do avião e afirma que o gravador de voz da cabine do piloto foi recuperado, mostrando que houve uma revolta dos passageiros e, por isso, os sequestradores derrubaram a aeronave antes da hora.

Um fato que alimenta estas teorias é que o NORAD (Comando de Defesa Aérea Norte Americana) estava conduzindo, no mesmo dia dos ataques, exercícios que situações hipotéticas em que aviões eram seqüestrados e usados como armas. Um dos alvos do exercício era, de fato, o World Trade Center. Por isso, quando a ordem para interceptar os aviões sequestrados chegou, houve uma confusão inicial, pois não se sabia se aquilo era uma ordem ou um exercício. 

Alguns sites também divulgam a chama Conspiração de Wingdings. Isso porque, pouco depois dos ataques, houve um boato de que um dos voos sequestrados tinha o número Q33NY. Quando escrevemos este número no Word e mudamos para a fonte Wingdings, encontramos um desenho bem sugestivo. Mas, na verdade, nenhum dos aviões sequestrados tinha o número Q33NY. Outra imagem que circula pela internet é a da nota de 20 dólares, que, quando dobrada dá origem a uma imagem que parece, usando muito a imaginação, o WTC em chamas.

Outros aficionados por números desenvolveram a Teoria do 11, já que existem algumas coincidências que envolvem o número. As palavras New York City e Afghanistan (Afeganistão, em inglês) possuem 11 letras, assim como o nome de George W. Bush. A tragédia aconteceu no dia 9/11 ( 9 + 1 + 1 = 11), no 254° dia do ano (2+5+4=11). Além disso, o número para emergência nos EUA é 911 e Nova York é o 11° estado americano.

Creomar de Souza, professor de Relações Internacionais da Ibmec, explica que essas teorias conspiratórias são construídas de uma forma até perversa, para dar uma versão alternativa a um fato já explicado. Ele lembra que, quando o homem foi à Lua, muitos também começaram a acreditar que aquilo, na verdade, era fruto de uma produção hollywoodiana.

“Não acredito nessas coisas. O que os fatos mostram é que, por exemplos, os EUA tiveram um papel fundamental no treinamento do Bin Laden, que foi treinado no Afeganistão para combater os russos. E, posteriormente, usou essa expertise para orquestrar os ataques ao WTC", diz.

A professora de Relações Internacionais da Escola de Guerra Naval, Sabrina Evangelista, ressalta que, na ocasião do 11 de setembro, não havia a cultura de um ataque iminente e que, embora houvesse documentos que indicassem isso dentro das próprias agências de inteligência, a expectativa de ataque por parte de organizações islâmicas era inexistente.

“Já se tinha esvaziado o potencial causado pelo primeiro ataque ao WTC, em 93. A sociedade norte-americana é conspirativa, a exemplo da morte do John F. Kennedy. A produção cultural americana também sempre girou em torno de teorias conspirativas. E o governo dos EUA sempre se utilizou enormemente desse tipo de uso da espionagem. O cenário político norte-americano é permeado por estratégias ligadas à conspiração”, garante.

Para ela, apesar de os EUA ainda não terem soltado informações suficientes para refutar estas teorias, deixando algumas ainda sem respostas, é mais lógico acreditar no envolvimento da grande luta da Jihad fundamentalista islâmica, que é pautada na luta contra a América.

“O sequestro dentro da Jihad faz muito mais sentido, porque eles se sacrificam em nome dessa guerra. A conspiração sempre serviu ao conservadorismo para justificar guerras, diminuição de investimentos. As teorias conspirativas em geral serviram em períodos de crise ao avanço do conservadorismo”, finaliza.