Líbia levará tempo para criar modelo pós-Kadafi, diz professor

O Conselho Nacional de Transição (CNT), órgão político da rebelião, levará tempo para criar um novo modelo político que deve substituir o regime do líder Muammar Kadafi. Em entrevista nesta quarta-feira ao Terra, o especialista Reginaldo Nasser, professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (Puc-SP) analisou as dificuldades do novo momento na crise líbia, 24 horas depois dos rebeldes tomarem o complexo de Kadafi em Trípoli.

Mesmo com o avanço do movimento de insurgência, o paradeiro do veterano líder continua desconhecido. As forças rebeldes afirmaram que controlam entre 90% e 95% do país, e revelaram a abertura de uma via de negociação com os xeques de Sirte, terra natal de Kadafi, para que a cidade se entregue sem derramamento de sangue. O CNT informou que pretende mudar sua sede de Benghazi para Trípoli em dois dias.

Segundo o professor, a Líbia vive a situação mais complexa nas revoltas que atingiram de uma forma geral todo o mundo árabe. "A situação é a mais complicada pelo número de atores envolvidos: a intervenção da Otan, uma oposição fragilmente organizada em torno de um conselho de transição, e o Kadafi, possuindo um exército particular e contando com apoio popular em Trípoli", afirmou. Ele acrescentou que "infelizmente ainda haverão mais mortes".

Para o especialista, ainda não está muito claro quem vai conduzir a transição, apesar do porta-voz Mahmoud Jibril, número 2 no órgão rebelde, ter ganho status de importância pelas potências ocidentais. Ele acredita que minimamente se pode dizer que haverá eleições no país. "Será elaborada uma nova Constituição, aquilo que é o mínimo para o funcionamento de um estado de direito", projetou.

Fim trágico

Reginaldo Nasser considera difícil haver na Líbia uma negociação entre ambas as partes semelhante à ocorrida no Egito, com o ex-ditador egípcio Hosni Mubarak indo a julgamento. "Tudo indica um fim trágico. Uma pessoa que ficou 42 anos desfrutando do poder não vai largá-lo assim tão fácil. Acho que ele vai para o tudo ou nada, a não ser que consiga fugir para algum país que lhe dê asilo, o que é improvável. Por outro lado, os rebeldes não querem acordo", explicou.