Distúrbios no Reino Unido são "panela de pressão", diz analista

Há uma semana, seria difícil apostar que a morte de um jovem pela polícia britânica acabaria em quatro dias de protestos, saques e vandalismo. Desde então, especula-se quais seriam as razões da revolta. Para o governo de David Cameron, tudo se resume à falta de educação, nada que uma ação mais efetiva da polícia não resolva. Por outro lado, há quem diga que o problema é mais grave, uma verdadeira "panela de pressão".

Esta é a opinião da cientista política Marcia Dias, professora do curso de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). Ouvida pelo Terra, ela acha que a morte de Mark Duggan, no dia 4 de agosto, foi o "estopim" para tensões sociais que estavam latentes - oridundas de medidas antipopulares do governo, que, diante da crise, vem cortando benefícios sociais.

Em resposta aos distúrbios, o premiê interrompeu suas férias na Itália, voltou ao Reino Unido e reuniu um gabinete de crise. Em seu primeiro pronunciamento, afirmou tratar-se de "delinquência pura e simples e que precisa ser confrontada e derrotada", e anunciou reforço policial. No dia seguinte, disse que os distúrbios eram causados por "uma cultura de falta de responsabilidade", tanto dos jovens quanto de seus pais, e reafirmou a crença em penas duras para combater o vandalismo.

É esta posição de Cameron diante da violência nas ruas a principal contestação de Marcia, que viveu na Inglaterra por um ano antes do início dos distúrbios. Segundo ela, "o governo de David Cameron vem desmontando o Estado de bem-estar social que foi construído ao longo de muitos anos". "(Isso significa) cortar uma série de benefícios sociais que a população tinha como certo. Nada disso estava no programa de governo deles", afirmou.

"O povo, principalmente as camadas mais pobres da população, está colocado dentro de uma panela de pressão. E essa panela de pressão teve um estopim e explodiu", disse ela, que critica as declarações de Cameron. "Ele sabe que isso não é simplesmente vandalismo. Porque se fosse simplesmente vandalismo, era só uma questão de repressão. Ele sabe que a questão é muito maior", afirmou. "E a maneira de reagir é a maneira dos conservadores: da repressão, que é o que ele está fazendo, inclusive tomando medidas consideradas antidemocráticas no mundo inteiro".

Repressão não é solução

Segundo o cientista político Maurício Santoro, professor da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro (FGV-RJ), o que ocorreu no Reino Unido, com ameaças de intervenção no direito de expressão dos cidadãos, "é algo muito raro na história britânica". De acordo com Santoro, "Cameron deu uma declaração controversa de que o multiculturalismo tinha fracassado no Reino Unido". As comunidades estrangeiras, disse ele, tinham que se adaptar ao modo de vida britânico".

"O que ele tem feito agora, a maneira como ele está lidando com esse tipo de distúrbio, é coerente com essas declarações polêmicas que ele fez há alguns meses", avaliou. "Tudo isso está sinalizando um fracasso das políticas de integração social do governo britânico e a tentativa de resolver essas tensões sociais por meio da força", analisou Maurício Santoro.

Os dois especialistas concordam que, entre os manifestantes, há vândalos e saqueadores oportunistas. "Mas de onde vem esse movimento 'eles têm muito e eu não tenho nada'? Vem dessa insatisfação crescente com o corte dos benefícios sociais", afirmou Marcia Dias. "É inviável imaginar que todos esses problemas relacionados à discriminação étnica e religiosa, a dificuldade de integração cultural, vão ser resolvidos simplesmente colocando polícia na rua. Isso é um problema social muito mais sério que está presente também em outros países europeus", disse Maurício Santoro.

Sobre o futuro das manifestações, Marcia Dias afirma que, "quanto maior for a repressão, a tendência é que os movimentos se intensifiquem, e não o contrário". "Quando as pessoas partem para esse tipo de atitude, elas normalmente não retrocedem em função do medo da punição. Porque se tivessem o medo da punição, eles não teriam nem começado esse processo", disse ela. "Há uma sensação não só de impunidade, mas também uma força muito grande das massas. Eles sentem que, juntos, eles têm poder", afirmou a professora da PUC-RS.

Já Maurício Santoro lembra casos de protestos parecidos, como em Los Angeles e na periferia de Paris, lugares onde o movimento não teve continuidade. "A tendência é que esses movimentos não deem frutos muito duradouros", avaliou ele. "Para que isso aconteça, tem que haver um nível maior de interlocução desses movimentos com o sistema político (...), e não me parece que isso vá ocorrer no Reino Unido", disse o professor.