Síria: refugiados desconfiam de ajuda humanitária do governo

Mohamed Marei acordou com o choro de uma criança doente chegando a sua clínica médica temporária, onde ele e meia dúzia de outros homens estão vivendo desde que fugiram de suas casas para escapar de uma violenta repressão do governo no noroeste do país.

"A criança estava sofrendo de diarreia e febre, como muitas outras aqui", disse Marei, que lhe deu uma injeção e a mandou embora. Então, outra criança veio com uma perna enfaixada, seguida por Noufa al-Ali e seu filho de 27 anos, Abu Mohamed. Ele carregava uma bolsa intravenosa vazia sobre o braço de sua mãe, mas a bolsa não podia ser substituída. A clínica havia esgotado seu estoque, então Marei removeu a agulha e jogou a bolsa em um canto.

Al-Ali estava bem de saúde até começar “toda matança e morte” que os levaram ali, disse seu filho. Eles resistiram a atravessar a fronteira para a Turquia, onde organizações humanitárias gerenciam campos formais de refugiados, porque querem retornar a sua casa na cidade de Ashtouria.

“Porém, nós não voltaremos até que o regime caia”, diz Al-Ali, de 48 anos.

Não há indicações que isso aconteça em breve. Entretanto, ativistas dizem que há uma necessidade aguda por cuidados médicos nos campos de refugiados temporários espalhados pelo lado sírio da fronteira. Khirbet al-Jouz é um dos campos, como muitos outros, onde a demanda por tratamento ultrapassa a sua capacidade. Marei, um farmacêutico com um ombro fraturado e pouco treinamento médico, luta para atender às demandas.

Mais de 10 mil refugiados sírios recebem cuidados médicos do Crescente Vermelho turco, uma versão local da Cruz Vermelha. A vida é bem mais dura para os milhares que continuam na Síria e buscam abrigo e frutas caídas de pomares de um vale cercado de montanhas. Eles vivem em prédios abandonados, carros ou amontoados de barracas surradas e montadas a partir de lonas e cobertores. Seus campos não são administrados por ninguém e recebem pouca assistência. A Turquia começou recentemente a distribuir comida e água engarrafada em Khirbet al-Jouz, mas os líderes entre os refugiados dizem que a ajuda não se estende à assistência médica.

“Há muitos casos médicos graves no campo que necessitam da atenção de um médico” diz Peter Bouckaert, o diretor de emergências para a organização Human Rights Watch, que conduziu uma pesquisa nos campos localizados na zona síria da fronteira. "Dadas às condições não sanitárias e o calor no campo, a vida das pessoas pode estar realmente sendo posta em risco".

A clínica de Marei é uma estrutura de concreto abandonada com dois quartos, no topo de um pomar de maçãs. Seu chão está coberto com finos colchões, lençóis e pequenas xícaras de chá de vidro, e a maioria de suas janelas estão quebradas. Um quarto abriga mais de meia dúzia de homens que se espalham pelo chão durante a noite e sentam ao ar livre em sua entrada durante o dia.

Eles passam o tempo tomando fortes xícaras de café e assistindo a canais de notícias árabes buscando qualquer menção do levante popular que assola a Síria desde março e tem suscitado um desafio sem precedentes para a família do presidente Bashar al-Assad, que reina há quatro décadas no país.

Fraldas e algumas garrafas de leite ficam em um canto, "mas não há possibilidade de fornecer assistência pré-natal para as 25 mulheres grávidas daqui", diz Marei. Mais de 50 pessoas têm problemas cardíacos e três têm doença nos rins, mas não há remédios. Há uma caixa com remédios para asma, mas apenas um inalador que é dividido por mais de 30 pessoas.

“Não houve tempo para pegar tudo. Quando o exército chegou, eu peguei o que pude e sai rapidamente”, justifica Marei.

Ele também não possui o treinamento para providenciar algo além da assistência básica ou o equipamento para efetuar procedimentos cirúrgicos.

“Há coisas que vejo aqui que eu não sei como tratar”, diz ele.

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha e seu sócio local, o Crescente Vermelho árabe-sírio, anunciaram recentemente que o governo havia concordado em garantir “maior acesso nas áreas de agitação”, embora o acordo ainda não tenha sido concretizado.

Apesar das diversas deficiências na clínica de Marei, poucos pareceram contentes com a perspectiva da chegada de médicos do Crescente Vermelho. As pessoas aqui estão cautelosas em relação ao governo e há rumores, espalhados recentemente, de que o Crescente Vermelho foi infiltrado pela Mukhabarat, a polícia secreta síria. Marei pensa que as pessoas irão apenas confiar em “seus médicos de casa, os de antes da revolução”, e terão medo de falar com o Crescente Vermelho.

Ibrahim, motorista que traz os feridos e leva pessoas para a fronteira, foi mais direto. 

“Você pensa que um governo que mata seu próprio povo vai realmente deixar o Crescente Vermelho vir aqui para nos ajudar? Claro que não. Eles são mukhabarats, virão para coletar informações para a inteligência sobre o que estamos fazendo aqui.