BEA: conversas dos pilotos do AF 447 jamais serão divulgadas

 

O BEA, escritório francês que apura as causas do acidente com o voo AF 447, anunciou nesta quinta-feira que as conversas dos pilotos gravadas numa das duas caixas-pretas do Airbus A330 que se acidentou no Oceano Atlântico jamais serão divulgadas à imprensa ou às famílias das vítimas. As caixas-pretas chegaram nesta manhã em Paris, onde a partir da tarde já começarão a ser manipuladas pelos investigadores.

"É um assunto muito sensível. Está fora de questão divulgarmos as conversas. Isso não foi jamais feito antes", disse o diretor do BEA, Jean Paul Troadec, durante coletiva de imprensa realizada na sede do órgão. "As conversas normalmente têm uma carga emocional muito pesada. Vamos utilizá-las como um elemento técnico essencial para compreender as causas do acidente, mas não há por que as divulgarmos."

As caixas-pretas foram apresentadas à imprensa e às famílias das vítimas poucas horas após chegarem à França. Uma contém as informações técnicas do voo, como os últimos procedimentos realizados a bordo, e a segunda é a gravação das conversas na cabine entre a tripulação. Alain Bouillard, chefe da investigação, anunciou que o BEA não vai revelar detalhes sobre a análise das gravações e dos destroços do avião antes do final das investigações - o que só deve acontecer, no mínimo, no início do ano que vem.

"Agora vamos entrar num longo processo de estudo de todas as peças recolhidas. É uma operação que não se conta em dias: se conta em semanas, em meses", afirmou Bouillard. "Estimo que apresentaremos um relatório da investigação no início de 2012."

As caixas-pretas permanecem guardadas em dois recipientes de vidro e imersas em água desmineralizada, a fim de evitar o processo de corrosão do material. Envoltas por diversas camadas de proteção, os cartões de memória encontram-se no interior das caixas-pretas - que na realidade são laranja.

Hoje à tarde, os especialistas do BEA abrirão os dois gravadores. Em seguida, retirarão os cartões de memória, semelhantes a uma placa de computador. As memórias passarão em seguida por um processo de secagem, por cerca de 12 horas. Após esse período, os técnicos vão inspecionar os possíveis danos que tenham afetado os equipamentos e tentarão fazer as reparações necessárias, antes de enfim repassar o conteúdo das gravações diretamente para um computador.

"Até segunda-feira, vamos saber se vamos poder ler as gravações contidas nas caixas-pretas", informou Troadec.

O acidente

O avião da Air France saiu do Rio de Janeiro com 228 pessoas a bordo no dia 31 de maio de 2009, às 19h (horário de Brasília), e deveria chegar ao aeroporto Roissy - Charles de Gaulle de Paris no dia 1º às 11h10 locais (6h10 de Brasília). Às 22h33 (horário de Brasília) o voo fez o último contato via rádio com o Centro de Controle de Área Atlântico (Cindacta III). O comandante informou que, às 23h20, ingressaria no espaço aéreo de Dakar, no Senegal. Às 22h48 (horário de Brasília) a aeronave saiu da cobertura radar do Cindacta.

A Air France informou que o Airbus entrou em uma zona de tempestade às 2h GMT (23h de Brasília) e enviou uma mensagem automática de falha no circuito elétrico às 2h14 GMT (23h14 de Brasília). Depois disso, não houve mais qualquer tipo de contato. Os fragmentos dos destroços foram encontrados cerca de uma semana depois no meio do oceano pelas equipes de busca brasileiras. No entanto, as caixas-pretas foram localizadas quase dois anos depois, em 1º de maio de 2011.

Dados preliminares das investigações feitas pelas autoridades francesas revelaram que falhas dos sensores de velocidade da aeronave, conhecidos como sondas Pitot, parecem ter fornecido leituras inconsistentes e podem ter interrompido outros sistemas do avião. As sondas permitem ao piloto controlar a velocidade da aeronave, um elemento crucial para o equilíbrio do voo. Mas investigadores deixaram claro que esse seria apenas um elemento entre outros envolvidos na tragédia. Em julho de 2009, a fabricante anunciou que recomendou às companhias aéreas que trocassem pelo menos dois dos três sensores - até então feitos pela francesa Thales - por equipamentos fabricados pela americana Goodrich. Na época da troca, a Thales não quis se manifestar.